domingo, 10 de março de 2013

Luiz Bras entra em cena


Luiz Bras entra em cena

Alexandre Staut

Antes de fazer a entrevista que segue, perguntei para o autor em questão como ele gostaria de ser tratado: Nelson de Oliveira ou Luiz Brasil. A resposta veio rápida: “O Nelson aposentou-se definitivamente da literatura. Faz mais de um ano que viajou para o Caribe e não deu mais notícias”.

A troca de persona literária começou a ocorrer em 2006, num momento em que o paulista Nelson de Oliveira contava com mais de dez anos de carreira e diversos prêmios literários no currículo. No entanto, Luiz diz, Nelson não tinha mais nada a dizer.

Luiz Bras, natural de Cobra Norato, no Mato Grosso do Sul, tomou força no ano passado, quando lançou seu primeiro romance para adultos: “Sozinho no Deserto Extremo”. Nesta época, passou a assinar com este nome os e-mails, um blog e até mesmo a caixa postal do celular.

Leia a seguir a entrevista que o autor concedeu ao blog Estudos Lusófonos:  

Há algum motivo especial para o Nelson de Oliveira ter fugido para o Caribe?
Há um motivo muito especial: merecidas férias criativas. Creio que a melhor explicação possível é a carta de despedida publicada em janeiro de 2012, no blogue do próprio Nelson: http://urbanalenda.blogspot.com.br

Segue a íntegra da carta:

“Amigo, amiga, o aparato corporal do proprietário deste blogue foi confiscado, agora ele pertence a outra consciência. Agora ele é outra pessoa. Forças poéticas incontroláveis operaram essa transferência. Forças do Bem, não se preocupe.

O círculo mágico iniciado em 1989, numa oficina de criação literária, está se fechando hoje. Na oficina coordenada por João Silvério Trevisan, nas antigas Oficinas Culturais Três Rios, troquei as artes plásticas pela literatura. Mais de vinte anos depois, mais de vinte livros publicados, chegou a hora da aposentadoria.

Foi por volta de 2005, 2006, que baixou o cansaço, a preguiça. Sempre que eu começava a escrever, vinha a impressão de estar repetindo certos procedimentos. Não existe nada pior pra um ficcionista do que escrever o mesmo texto ano após ano. Foi nessa época que tomei a decisão: está na hora de parar (como tantos escritores que pararam). Ou de mudar (como tantos escritores que mudaram). Ou as duas coisas. Hora de comemorar o final de um ciclo criativo e o início de outro. De mochila pronta para as merecidas férias, chegou a hora da metáfora dramática: hoje eu deixo o palco, tomo distância da vida literária. Entra em cena Luiz Bras.

É claro que a transição não foi abrupta, foi até bastante pacífica. O círculo começou a se fechar há muito tempo. O último texto ficcional que escrevi já fez cinco anos, acho que ontem ou anteontem. Os primeiros escritos do Luiz já fizeram uma década. Faltava apenas completar o processo, dar o salto. Definitivamente.

Sai este autor, ficam os livros, e apenas os livros: sua melhor parte. Afinal essa é a ordem natural das coisas. A vantagem, no meu caso, está em sair ainda respirando, vivinho da silva, diferente do que acontece com a grande maioria.”

Mesmo na intimidade, com seus amigos e familiares, você assumiu a identidade de Luiz ou foi apenas o Nelson de Oliveira “homem das letras” que desapareceu?
Como você percebeu, lendo a carta de despedida, não se trata de um exercício de heteronímia, como no caso clássico de Fernando Pessoa. Foi apenas uma mudança de nome literário e de temática. Com meus amigos e familiares eu continuo sendo o antigo Nelson. Mas na vida social literária, em nome da coerência eu gosto que me chamem de Luiz Bras, pois esse é o autor que está assinando os artigos pra imprensa, os contos e romances.

Trata-se de um exercício para se livrar do ego, pensando que o nome Nelson de Oliveira é bastante respeitado no meio literário?
Diria que está sendo um exercício de renovação do ego. Depois de mais de vinte livros publicados, Nelson andava cansado de sua literatura, com medo de cair na repetição, no moto contínuo, como vejo acontecer com tantos escritores. Então ele decidiu desligar o piloto automático, sair da zona de conforto e iniciar uma nova carreira. Foi, antes de tudo, uma estratégia existencial. A mudança de nome, algo aparentemente tão simples, renovou minha vida e minha literatura.

E o Luiz? Quando começou a aparecer esta persona literária? Qual foi a sua primeira aparição?
Nelson de Oliveira estreou na literatura em 1995, com a coletânea de contos Fábulas, publicada não em português, mas em espanhol. Esse livro venceu o Prêmio Casa de las Américas, responsável por sua publicação. O último livro lançado com meu nome verdadeiro foi Poeira: demônios e maldições, em 2010. Foram, então, quinze anos. Já o primeiro livro publicado por Luiz Bras foi o romance juvenil Bia Olhos Azuis, em 2004, em parceria com Tereza Yamashita. Sendo assim, durante seis anos os dois autores conviveram pacificamente em minha mente. A mudança foi acontecendo aos poucos, nos seis anos em que os dois autores conviveram sem qualquer conflito. Desconfio que nesse período Luiz Bras foi ocupando devagar, na malandragem, o espaço de Nelson de Oliveira.

Luiz escreve somente narrativas de ficção científica? Poderia falar sobre a produção desta sua persona literária?
Minha produção ficcional trata basicamente da maneira como o ser humano, por meio da ciência e da tecnologia, está modificando fisicamente o próprio ser humano. Todos nós nascemos num mundo profundamente tecnológico. Estamos mergulhados na tecnologia. Mas poucas pessoas prestam atenção nisso. A literatura brasileira contemporânea, em minha opinião, lida muito mal com essa verdade inquestionável: somos seres absolutamente tecnológicos. Os poetas e os ficcionistas tupiniquins acostumaram-se a fingir que a tecnologia não existe, ou não é relevante. Em seus textos raramente aparece a tecnologia que nos cerca, que está colada em nós. Menos ainda a tecnologia mais sofisticada, que está dentro de nós, modificando nossos genes, defendendo nosso organismo contra vírus e bactérias, potencializando nossa inteligência.

Quais são as impressões do Luiz sobre o trabalho do Nelson?
Na verdade, Luiz Bras ainda não leu Nelson de Oliveira, rs. Nem planeja ler.

Nelson sempre foi muito atento à produção literária nacional contemporânea. Luiz também traz esta característica?
Certamente. Gosto bastante da literatura brasileira contemporânea. Não apenas da prosa, mas principalmente da poesia. Creio que essa é uma característica comum em todos os escritores, de todas as épocas: a curiosidade pelo que seus pares estão produzindo.

Quais são os autores de ficção científica que rondam o mundo do Luiz?
Atualmente são os escritores do movimento cyberpunk, como William Gibson e Bruce Sterling, e os do movimento new weird, como China Miéville e Jeff VanderMeer. Também tenho lido com certa freqüência os romances de Orson Scott Card e os de Ursula K. le Guin.

Quando é que no seu dia a dia o Nelson insiste em dar as caras?
Raramente. Apenas na hora de pagar uma conta ou apresentar a cédula de identidade.

Quando você, como Luiz, pega um dos livros do Nelson, qual a primeira ideia que vem à sua cabeça?
Eu jamais peguei um livro do Nelson, juro.

E o Nelson, o que achava da produção literária do Luiz?
Duvido que o Nelson conheça os livros do Luiz. Os dois autores jamais se encontraram sequer pra tomar um cafezinho e falar de futebol.

O Nelson interfere, de alguma forma, na produção do Luiz, nos dias de hoje, mesmo depois de ter desaparecido?
No plano mais profundo, do inconsciente, da fantasia literária, com certeza há interferência. Afinal existem certas semelhanças entre os dois autores. Ambos têm um grande apreço, por exemplo, pela realidade expandida, ou seja, por essa realidade de segunda ordem, ampliada de mil maneiras pela invenção da linguagem.

Quais são os momentos em que você diz “agora quero ser Nelson” ou “agora quero ser Luiz”? Aliás, existem momentos assim?
Confesso que esses momentos não existem mais. A mudança foi mesmo radical.

Quais são os autores brasileiros de ficção cientifica que merecem a atenção dos leitores?
São muitos, mas você não irá encontrá-los facilmente. Eles não são convidados para os eventos oficiais do mainstream literário. A maioria das livrarias do país não tem seus livros. A ficção científica brasileira sofre um grande preconceito principalmente por parte da crítica jornalística e acadêmica. Alguns títulos e autores importantes, que merecem ser lidos, são A espinha dorsal da memória de Braulio Tavares, Confissões do inexplicável de André Carneiro, Fábulas do tempo e da eternidade de Cristina Lasaitis, Selva Brasil de Roberto de Sousa Causo, Os dias da peste de Fabio Fernandes, Piritas siderais de Guilherme Kujawski e Santa Clara Poltergeist de Fausto Fawcett.

Quais são os temas literários do Luiz?
São os temas filosóficos tradicionais, potencializados pela pesquisa científica e pelo avanço tecnológico. Nós, humanos, somos seres mutantes. Somos “a work in progress”. Graças à atual explosão tecnológica, estamos vivendo mais um momento de transição evolucionária. Estamos no limiar do que se convencionou chamar de pós-humanismo. Hoje, por meio dos avanços da ciência e da tecnologia, nós temos o poder de alterar fisicamente nossa própria espécie. As próximas gerações viverão mais e melhor, graças à manipulação genética, aos implantes eletrônicos e às drogas da longevidade e da inteligência. É sobre isso tudo que eu gosto de escrever.

E como é a sua relação com os leitores?
No início metade de meus leitores estranhou um pouco a mudança de nome, mas esses logo aceitaram a mudança. A outra metade estranhou bastante e demorou pra se acostumar. Ainda hoje há uns poucos leitores que se recusam a reconhecer o novo nome. Mas o tempo está a meu favor. O antigo nome, quer eu queira ou não, irá desaparecer lentamente nas brumas no passado.

Se tivesse que escrever um perfil literário para o Luiz em até 140 caracteres, qual seria?
“Luiz Bras sempre morou no terceiro planeta do sistema solar. Com os gatos aprendeu a acreditar em telepatia e universos paralelos.”

E se tivesse mais espaço para descrever as características da literatura do Luiz?
Acredito firmemente que o autor não é a pessoa mais capacitada pra falar da própria literatura. Sinto-me mais à vontade escrevendo sobre os livros dos outros escritores do que sobre meus próprios livros. Deixarei esse trabalho para os leitores e pra crítica especializada.

Em sua última coluna do jornal Rascunho, fez uma brincadeira com alguns romances nacionais bastante celebrados (de Clarice, Machado, Graciliano, entre outros) e o mundo da ficção científica. Quais livros nacionais, destes famosos, você considera de fato exemplos de ficção científica?
Esse artigo irreverente, intitulado Dez romances essenciais da ficção científica brasileira, fez bastante sucesso entre os leitores do Rascunho. Mas é claro que nenhum dos romances parodiados pertence realmente à ficção científica brasileira. Diferente do célebre poema A máquina do mundo, de Drummond. É bom lembrar que esse poema já foi escolhido pela crítica como o melhor poema brasileiro de todos os tempos. Eu considero A máquina do mundo um excelente poema sobre o encontro de um ser humano e uma criatura alienígena.

Para finalizar, queria que você falasse mais um pouco da literatura de ficção científica no Brasil atual. Você comentou que há preconceito por parte da crítica jornalística e acadêmica. Parece que entre os literatos também. Em outros países parece que este eixo temático é bem aceito. Para citar um exemplo, temos a Doris Lessing, que tem livros belíssimos de ficção científica, todos celebrados da mesma forma que os seus romances mais tradicionais.
Isso é sinal de vitalidade cultural. Na literatura de língua inglesa você irá encontrar um número muito grande de ótimos escritores do mainstream literário que também escrevem ou flertam com a ficção científica. Ao lado de Doris Lessing está, por exemplo, Margaret Atwood, Thomas Pynchon, Kazuo Ishiguro, Cormac McCarthy… Citei apenas os que eu já li. Neste exato momento há muitos outros jogando criativamente com as várias vertentes da ficção científica: clonagem humana, viagem no tempo, universos paralelos, pós-apocalipse, história alternativa, distopia etc.

Alexandre Staut
Março de 2013


Alexandre Alexandre Staut é escritor e jornalista, é autor dos romances Jazz band na sala da gente (Toda edições, SP, 2010)  e Um lugar para se perder (Dobra, SP, 2012). Leiam suas outras entrevistas para o blog Estudos Lusofonos  no link: AlexandreStaut




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