quarta-feira, 21 de junho de 2017

As bibliotecas em mim

As bibliotecas em mim

Carlos Henrique Schroeder

A vida é uma gangorra e sempre te leva ao passado. Nasci em Trombudo Central, há praticamente quatro décadas, em uma pequena cidade do interior de Santa Catarina, que nunca ultrapassou os dez mil habitantes (para sua sorte ou desgraça). Na era pré-internet as bibliotecas eram o Google, mas especialmente para quem morava em cidades sem livrarias, como eu, as bibliotecas eram o contato com o mundo exterior. Estar numa biblioteca era estar no mundo, e eu passei minha adolescência naquele mundo, o das bibliotecas públicas da minha região.

Primeiro, na Biblioteca Pública Presidente Getúlio Vargas, fundada por meu avô, no então distrito de Braço do Trombudo, onde morava (um vilarejo no interior de Trombudo Central); depois, na Biblioteca Pública Municipal Cruz e Sousa, em Trombudo Central; e por fim, no centro do universo: a Biblioteca Pública Municipal Nereu Ramos (criada em 21 de outubro de 1953) em Rio do Sul, maior cidade da região (a vinte e quatro quilômetros de distância). Lá, as prateleiras eram incontáveis e os volumes ocupavam dezenas e dezenas delas.


No início, quando era um pré-adolescente, minha mãe ia comigo, a cada quinze dias, de ônibus, para escolher três livros (o permitido), depois passei a ir sozinho. A felicidade era uma escala crescente, mais ou menos assim: o trajeto de ônibus e a ansiedade de chegar à biblioteca, a escolha dos livros (que demorava horas) e as leituras. Esse ritual quinzenal é o que sobra da minha adolescência, é onde estão as lembranças mais vívidas. Não foi a descoberta do sexo, ou da amizade ou do amor, pois as três coisas vieram acompanhadas de decepções e foram lá para trás, para o sótão mais distante. Enquanto minhas caminhadas pelos corredores da biblioteca, o tatear por filas de livros e estantes, a descoberta de grandes livros, sempre estiveram numa área luminosa, ao primeiro alcance da memória. Ninguém me falou de Franz Kafka, eu não li sobre ele em uma revista ou alguém me entregou nas mãos e disse “leia isso, cara, agora”. Eu descobri sozinho, de joelhos, numa prateleira periférica. E estavam lá A metamorfose, O processo e Carta ao pai. Os títulos insólitos e diferentes nas lombadas e as capas sombrias desafiaram o jovem leitor, que já foi devorando as páginas no retorno sacolejante do ônibus.

E como se vive depois de Kafka? Ele te conecta com outro mundo, contemporâneo (“contemporâneo é aquele que mantém fixo o olhar no seu tempo, para nele perceber não as luzes, mas o escuro”. Agamben, Giorgio), de verdade. E você quer, cada vez mais, repetir essa experiência de escuridão, e vai lendo coisas cada vez mais desafiadoras, e entra num caminho sem volta.



E você começa a se deparar com fantasmas entre as prateleiras da biblioteca, um dia você encontra Mersault, em outro, Madame Bovary, esbarra no escrivão Bartleby ou no cínico Bento Santiago ou na poesia corroída por vermes de Augusto dos Anjos.

Então aquela biblioteca, que era a porta do mundo, passara a ser também a porta dos meus instintos mais sombrios, como leitor, como ser caminhante.

E você se atreve a escrever, sim, a escrever.

Montei (com dezessete anos)  o primeiro jornal do (já emancipado de Trombudo Central) município de Braço do Trombudo, o jornal Gazeta Tradição, um periódico mensal de variedades que me valeu um passaporte para escrever um ano mais tarde no Diário do Alto Vale. Comecei como jornalista, mas o que gostava mesmo era de escrever resenhas de livros, e contos.

Agora também já tinha acesso para a farta biblioteca dos meus avós paternos, com as coleções do Hemingway, Maupassant e dos ganhadores do Nobel, mas a Biblioteca Pública Municipal Nereu Ramos, com seus milhares de volumes, continuava a ser meu destino predileto.

Essa pequena crônica, de um leitor faminto, adotado por uma biblioteca, pode soar como uma brisa, mas quem conhece as bibliotecas, de verdade, sabe que todas são habitadas pelos espectros de seus leitores. Então ainda estou lá, com os cabelos longos, olhar vago, indo de um corredor para outro, acreditando que cada prateleira era um continente. E era. Tempestade.



XXX

foto de Thays Magalhães

Carlos Henrique Schroeder nasceu no da 9 de junho de 1978 em Trombudo Central, em Santa Catarina.  Vive em Jaraguá do Sul, no norte do estado. Publicou vários livros, entre o conto, o romance e a dramaturgia, com destaque para as seguintes obras:  o romance "Ensaio do vazio”, lançado em 2007 e adaptado para os quadrinhos em 2012 pela editora carioca 7Letras. A coletânea de contos "As certezas e as palavras”, obra vencedora do Prêmio Clarice Lispector, da Fundação Biblioteca Nacional, em 2010. O romance "As fantasias eletivas”,  lançado no Brasil em 2014 pela editora Record e na Espanha em 2016 pela Maresia Libros. O livro também foi indicado nos vestibulares UFSC, UDESC e Acafe nos anos de 2016 e 2017. Eleito o melhor romance do ano de 2014 pela Academia Catarinense de Letras e semifinalista do prêmio transnacional Oceanos Itaú Cultural. Outro destaque é "História da chuva" (Record, 2015), obra contemplada pela bolsa Petrobras Cultural. É editor-associado da Revista Pessoa, única publicação destinada à divulgação da literatura lusófona no país, desde 2014. Assina a coluna de literatura do jornal Diário Catarinense, todas as quartas-feiras, desde 2014.




domingo, 18 de junho de 2017

O incêndio


Claudio Parmiggiani

O incêndio (*)
Alexandre Staut

No quadro de avisos da prefeitura, logo na entrada do hall, um cartaz improvisado, em pincel marca-texto verde, faz a contagem regressiva para o fim das atividades anuais. “Senhores leitores, o serviço de biblioteca entra em férias a contar do dia 23 de dezembro do corrente ano, voltando no dia 7 de janeiro. Agradecemos as visitas realizadas. Desejamos Feliz Natal e um Ano Novo de realizações. Obrigado, desde já!”

No mesmo quadro de avisos institucionais, uma pequena placa anuncia a audiência de dias atrás entre prefeito e secretário de cultura, sobre a dedetização contra os cupins, que tomam conta da construção há anos. Somos um prato cheio para eles, os cupins. Tomaram conta dos telhados forro vigamentos partes do piso janelas portas ripas armários escrivaninhas mesinhas cadeiras balcão e divisórias e, pior, das peças do acervo.

Muita gente diz que a biblioteca devia fechar as portas. O prédio tem infiltrações, o sótão virou ninho de pombas, os moradores daqui não leem tanto assim, a biblioteca já cumpriu sua missão, conforme dizem políticos locais, discurso repetido com ponto e vírgula por parcela da população, frases que chegam, vez ou outra, aos meus ouvidos.

Outra volta ao redor de meu eixo e avisto a entrada do edifício, o piano, também tomado por cupins. Chegam a fazer barulho em seu banquete contínuo. Supostamente, Mário teria extraído toadas do instrumento, tendo ao seu lado três ou quatro mecenas locais. Há ainda outra história, contada por um antigo funcionário. A figura ilustre a se sentar na banqueta que compõe o instrumento foi Dom Pedro II, numa de suas viagens à região. Mitomania, talvez, não se sabe. O monarca, diz o colega, teria tirado suas botinas, para coçar os pés, à medida que dedilhava as peças sonoras. Tinha frieiras e forte odor entre os dedos. Eu rio ao ouvir a história, repetida de duas a três vezes ao ano, pelo servente municipal, que, de vez em quando, passa por aqui para quinze minutos de prosa e um café.

Deixo de lado o ilustre piano e os meus olhos correm pelas portas internas que separam os vários ambientes, os janelões de pintura gasta, uma dezena deles, que abro e fecho diariamente. O sol deve entrar na casa, livrando-a do rastro de mofo deixado pelas chuvas de verão.

Joseph Beuys, Infiltration homogène pour piano à queue, 1966 

No meu passeio em torno do meu próprio eixo, vejo esse mundo em vertigem e a velocidade faz com que aspire o vento adocicado, que se desprende dos volumes. Olho para o relógio de parede, na tentativa de parar o tempo, relembrando de um momento em que a casa era mais visitada.

Observo mais uma vez o mundo ao redor, agora quase em câmara lenta, até perder a visão no tampo da mesa e então percebo o cenário que não muda há décadas, as fileiras organizadas.

Os títulos, sei de cor. Nossa biblioteca nunca foi como a de Alexandria, a de Paris, a Mário de Andrade, na capital, antes ou depois do restauro. Mas, é preciso dizer, tem luz própria, sobrevivendo aos tropeços, ofegante nos últimos tempos, mas ainda distante de um possível suspiro final.

Tenho a impressão de que as obras se encaixam meio bambas, umas às outras, espremem-se, sobressaindo-se as mais volumosas ou então aquelas em capa de couro com frases gravadas em dourado, no meio disso a que muitos chamam de bagunça, mas que nada mais é do que a ordem natural de livros que se ajustam, de forma harmoniosa.

A arrumação semanal é feita toda quarta-feira, no período matinal. Hoje em dia, Ceição, a faxineira, espana o pó das lombadas, mas já houve época em que tirava cada um dos livros do lugar, colocando-os em seguida no exato nicho de antes. Uma arrumadeira com obsessões dignas de um bom bibliotecário.
“Para que uma casa funcione bem são necessárias regras”, fala a servente, sempre da sua visita. Cada vez que a vejo, penso na arrumação primeira das prateleiras. Mas não saberia dizer quais foram as condutas utilizadas para a criação do espaço e a sua organização. Já dediquei uma pequena investigação a isso, tão logo comecei a servir a casa. Mas não há registros das preliminares... nome de autor sobrenome ano de publicação identidade de temas volumes nacionais estrangeiros...

Lá atrás, ao tentar decifrar os critérios utilizados para o funcionamento deste lugar, cheguei sempre à mesma notícia: os primeiros livros reunidos foram da coleção particular de dona Irene Souza da Silva, ou apenas dona Irene, herdeira do sobrado. Um dia, transformou a casa dos pais, aposento por aposento, neste universo, que pouco depois se tornaria o orgulho da cidade, um dos cantos mais respeitados pelos nossos munícipes, até se transformar num dos mais esquecidos de todos.

Bernard Aubertin, Tableau feu I

Dizem que faltam cadeiras confortáveis, limpeza para a retirada do mofo, computadores, que a forma de funcionamento da casa envelheceu. Alguns falam que virei parte da movelaria e que cheiro a mofo; outros me chamam de bicha beletrista do século passado, veado dos livros. Um associado chegou a dizer, nas épocas de barba, que eu era o profeta da cidade, outro, fala que vivo dentro de um conto de Jorge Luis Borges, observação que fez os meus olhos brilharem.

Mas o que faço mesmo é tentar colocar alguma ordem nas prateleiras, facilitar a vida dos frequentadores, colar pequenas placas indicativas nas estantes, prosa poesia filosofia filologia gramática religião técnicos em geral... tentativa de ordenar. Mas, para cada livro que arrumo, uma prateleira inteira desaba em cima da minha cabeça. Para conter o caos, arrumei algumas dezenas de classificações, e, dentro de cada uma, outras mais específicas. Nome do autor a partir do sobrenome é um dado predominante, mas há prateleiras que não seguem a premissa.



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Fotografia de Giuliana Nogueira


Alexandre Staut é escritor e editor de livros. É o idealizador da revista literária eletrônica São Paulo Review e autor do livro de auto-ficção Paris-Brest (2016).


* Trecho do romance inédito O Incêndio de Alexandre Staut, narrado por um bibliotecário, sobre os últimos suspiros de uma biblioteca decadente prestes a ser incendiada. 

sexta-feira, 16 de junho de 2017

Flor-a-ser

Flor-a-ser (I)
Para Vinicius Andrade
Nilma Lacerda

A felicidade é clandestina, mais uma vez. E, mais uma vez, determinada a ser consentida, nesta leitura na biblioteca escolar para jovens estudantes.  Tomo o conto de Clarice, leio. Sem explicações anteriores, nem didatismos, sem dizer quem é a escritora, só o nome dela, o livro, a editora, o ano. O mistério do nome de alguém que ainda não se conhece. Quando souberem quem ela é, dirão, ah, então aquele texto era dela. Haverá tempo para isso.
Leio para eles. Nem todos terão vindo pela leitura, alguns talvez pelo ar condicionado no repouso (curto) da hora do almoço. Acabo de ler, faço algumas referências, aguardo que se manifestem. Nada de perguntas para avaliar, nenhuma interpretação. E eles vão comentando, gostaram de ouvir, um deles – o rapaz, a moça? – diz que foi bom, o outro – a moça, o rapaz? – acrescenta que era muito legal “alguém ler para a gente, como se a gente fosse tudo naquele momento”.


Certa vibração, silêncio. Em mim, a teórica exulta, a leitora se emociona, busca o equilíbrio na corda bamba, mas cai na rede: houve um tempo em que a minha janela se abria para um chalé. Na ponta do chalé brilhava um grande ovo de louça azul. Nesse ovo costumava pousar um pombo branco, tinha dias de ar límpido que o pombo parecia pousado no ar. As palavras escritas de Cecília Meireles lançaram os fios, ali estávamos, na segurança de um ovo azul, um livro abraçado ao corpo. Deitados na rede, como a menina-mulher revelada em Clarice, a felicidade entrava na vida, gratuita e manifesta, como deve ser.
Éramos uma dupla, o estagiário e eu, nos revezando nas leituras. Vinicius ficou com as turmas menores, a mim couberam as maiores. Então, um jovem aluno de Letras, crianças que são alunas de uma escola pública federal: um lê, outros escutam, se deixam prender na malha de palavras. Alguém lê livros para elas, e o momento é denso, único, pombo branco no pouso leve sobre azul.    
Na turma maior, uma jovem, protótipo da aluna rebelde, provocadora, após a leitura de Clarice arriscou propor algo como mistério para o texto do dia seguinte. Em casa, abri a biblioteca, este texto, aquele, qual para prender a leitora ao mistério? Caio Fernando Abreu, os Girassóis. Fragmento da crônica escrita pouco antes de morrer, editado pelos amigos. Costumo lê-lo para exemplificar o quanto é incógnito o solo de onde pode brotar um leitor. Caio, então. Mas a provocadora de ontem é a deprimida de hoje, estende o braço, deita a cabeça sobre a mesa, não está a fim de participar, nem de se alegrar porque pensei nela e trouxe um mistério, como pediu.


Os colegas, não. Estes, como na véspera, estavam a fim de se regozijar com o fato de haver alguém lendo para eles nos minutos seguidos ao almoço, no conforto do ar condicionado e da cenografia de uma biblioteca. Lido o texto, um quase nada de conversa, acabou o intervalo, é hora de voltar às disciplinas. Despedem-se rápido, como se despediram, ao fim de quinze dias, os lírios cuidados diariamente em uma jarra com água, o ramo comprado apenas com uma flor entreaberta, os demais botões fechados na promessa de flor-a-ser. Todos os dias, trocava a água, limpava os talos, punha-os na varanda, à noite, para a recuperação feita de escuro e frescor. Pela manhã, o ramo entrava viçoso na sala. Assim foi até que o último botão se abrisse flor na jarra com água, resposta ao gesto de confiança no trabalho dos elementos.
Caio, Cecília, Clarice sabiam da força deste trabalho. Vinicius acabou de descobrir. Após as leituras para os pequenos, em dias sucessivos, e, respondendo à pergunta ansiosa que fizeram se ele voltaria para continuar a tarefa, me diz, emocionado: “Agora, eles sabem que eu existo.”



XXX




Nilma Lacerda é autora, dentre outras obras, de Manual de Tapeçaria, Sortes de Villamor, Pena de Ganso, Cartas do São Francisco: Conversas com Rilke à Beira do Rio. Figura em Amores vagos e Mapas de viagem, antologias do grupo Estilingues. Orientadora de algumas oficinas literárias, pesquisa criação literária e palavra escrita, publica ensaios e artigos científicos. Recebeu os prêmios Rio de Literatura, Jabuti, Brasília de Literatura, Cecília Meireles, Orígenes Lessa e Monteiro Lobato da Fundação Nacional do Livro Infantil e Juvenil (FNLIJ), seção brasileira do International Board on Books for Young People (IBBY). Doutora em Letras Vernáculas, tradutora, é professora associada da Universidade Federal Fluminense, mantém a coluna Ladrilhos na Revista Pessoa de Literatura Lusófona. Participou da 4ª edição do Printemps Littéraire Brésilien.

* texto originalmente publicado na Revista Pessoa de Literatura. Link : https://www.revistapessoa.com/

Referências :
* Cecília Meireles. A arte de ser feliz. In: ___. Escolha o seu sonho; crônicas. 19. Ed. Rio de Janeiro. Record, s/d. p. 23-4.

** Caio Fernando Abreu. Girassóis. Il. Paulo Portella Filho. São Paulo: Global, 1997.

Abraços da equipe do Blog Lusophone aos bibliotecários da Biblioteca Monteiro Lobato do Colégio Universitário Geraldo Reis (Universidade Federal Fluminense)

quinta-feira, 15 de junho de 2017

Sobre livros , sorvetes e jangadas.

Sobre livros , sorvetes e jangadas.

Andrea Nunes

Um dia desses, eu vi na televisão a história de Rivânia. A menina que salvava livros, como ficou conhecida nas redes sociais, ganhou esse apelido quando teve alguns minutos para decidir, a pedido da avó, quais os bens mais preciosos que tinha para resgatar em meio à inundação que atingiu sua casa no interior de  Pernambuco. “Os livros são meu futuro”, ela teria dito na ocasião, com uma lucidez rara e comovente. E colocou os livros na mochila, tendo sido assim fotografada por uma jornalista , abraçada a eles na jangada que a conduziu em meio às águas da chuva.

Eu tinha oito anos de idade quando fui morar na Salustino Ribeiro, a rua da biblioteca pública. A mesma idade da menina que salvava livros. Meu novo endereço era uma casa alugada de esquina, com papeis de parede mofados e um  terraço simpático. Estava localizado praticamente no quintal do espaço cultural José Lins do Rego, convidando minha vidinha minúscula a abarcar uma outra escala de grandeza.



Antes de descobrir a biblioteca, conheci a pista de skate. o planetário. o teatro. o sorvete de nata-goiaba da cantina.

Foi com o frescor desses novos prazeres derretendo na boca  que topei com a rampa que levava à biblioteca subterrânea.

Não sei determinar exatamente que tipo de força me arrastou para dentro. Lembro que, primeiro de tudo, gostei dos cheiros. Então, gostei do silêncio que aconchegava tudo.  As paredes forradas de livros, esses objetos quase tão pequenos. O toque eletrizante dos meus dedos deslizando sobre as texturas das lombadas, enfileiradas nas prateleiras. Depois, palavras e emoções novas derretendo na boca, com o virar das páginas.

Um dia eu percebi que  morava ali com os livros, de certo modo. Acho que foi quando eu dei por mim que aquelas coisas pequenas como eu podiam esconder enormidades. Então começamos a gestar naquele abrigo a pessoa que eu me tornaria.

Eis que no mês passado, trinta e sete anos depois, eu volto ao Espaço Cultural José Lins do Rego como convidada de um festejado evento. Palestra, mídia, autógrafos. E os livros, que agora têm meu nome na capa.

Meus pés me arrastaram de volta à entrada da velha biblioteca pública subterrânea, que continua ali, parecendo agora bem mais acanhada do que era há trinta e sete anos.




Na sua rampa de entrada, avistei a antiga porta ampla envidraçada, onde tantas vezes vi o reflexo da menina de oito anos, mochila nas costas, descendo saltitante para mais uma tarde entre seus livros. Mas quando olhei para o reflexo, era Rivânia , a outra menina, quem estava lá. Se equilibrando na jangada improvisada, abarcando com os bracinhos suas enormidades que cabiam na mochila desbotada.A menina, que até no nome carregava o simbolismo de um naufrágio, desafiou sua sina severina e salvou. Mas não a si própria, que ela não precisava de salvação. Salvou  a todos nós de afundarmos na descrença e na apatia. Resgatou um vislumbre de esperança em uma sociedade inundada de cinismo.

Olhei de novo para o reflexo e me enxerguei na cena refletida.

Eu? Sim, eu também estava lá naquele reflexo, certeza absoluta. Mas como? Nenhum de nós jamais poderia ser Rivânia, que é muito mais rara que todos que eu conheço, porque perseverou no solo bruto, sem qualquer estímulo, só conhecendo da vida a adversidade, e devolvendo teimosia e força de vontade. Não.  Não chego aos pés de Rivânia, ela é bem mais forte do que eu, que fui criada por professores num lar de classe média. Então olhei a cena com mais cuidado e percebi . Não somos Rivânia, mas estamos na cena, sim. Porque é nossa responsabilidade protegê-la dos tantos naufrágios que teimam em inundar sua vida. Porque precisamos aprender com ela a lógica irrefutável de enxergar o que é mais importante, salvar o que vai garantir nosso futuro. Garantir que meninas como Rivânia sobrevivam às intempéries é o que importa. Dar meios para tantas Rivânias se tornem felizes e produtivas é o nosso futuro.

E nós, nesse quadro? ,  eu continuava a refletir.

Nós somos a jangada.




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Andrea Nunes é autora dos romances policiais O  Código Numerati e A Corte Infiltrada ( BUZZ editora). Em 2014, recebeu da Academia Pernambucana de Letras a menção honrosa do prêmio Dulce Chacon, de melhor escritora nordestina do ano de 2014. Suas obras literárias têm recebido elogios de escritores como Mary del Priore, Raimundo Carrero e José Paulo Cavalcanti Filho. Atua também como Promotora de Justiça de combate à corrupção em Recife. Andrea Nunes participou da 4° edição do Printemps Littéraire Brésilien. 



quarta-feira, 14 de junho de 2017

Uma Biblioteca Pública!




Uma Biblioteca Pública!
Manuel Filho
        
         Há quem diga que se trata de um depósito de livros, outros, de um local que ninguém frequenta mais.

         Os que afirmam isso, provavelmente desconhecem o poder de transformação que pulsa nesses espaços. Eu não tenho receio em afirmar que, além de guardarem histórias, elas produzem seus próprios encantamentos.

         Devo dizer que minha vida mudou completamente quando eu entrei na primeira Biblioteca Pública que conheci, a Monteiro Lobato, em São Bernardo do Campo (SP), Brasil. Tudo começou com um gibi, o do Satanésio, uma publicação brasileira de exclusivos quatro números, do autor Perotti, e que minha mãe me presenteou em 1976.

         Tamanho foi meu fascínio com aquele exemplar, que eu o preservo até os dias de hoje: a primeira obra impressa que tive nas mãos. Acho que isso despertou algo em mim, afinal, na minha casa não havia sombra de livros.

         Quando principiei os estudos no primeiro ano primário, na escola pública, também lá não existiam livros. Entretanto, do outro lado da avenida, localizava-se um prédio “baixinho”, com apenas um andar e meio, pois a parte de cima ocupava somente metade da laje: a Biblioteca, sempre com letra maiúscula, que citei acima.


         Entrei e descobri uma área exclusivamente infantil repleta de publicações diversas, de histórias que iriam me encantar permanentemente. Meu contato inicial ocorreu com “As aventuras de Tintim”, Hergé, porque era o que mais se aproximava dos gibis que eu já lia. Em seguida, me aventurei por “Alice no país nas maravilhas” e “Alice no reino do espelho”, ambos de Lewis Carroll. As ilustrações em preto e branco, especialmente a do Ovo que tinha medo de cair do muro, me impressionavam e assustavam.

         Então, um dia, as bibliotecárias me sugeriram que eu lesse, “Os segredos de Taquara-Póca”, de Francisco Marins e, daí em diante,  virei um leitor apaixonado.  Li a obra completa que esse saudoso autor escreveu para crianças e jovens.

         Acabei sendo o detentor da carteirinha número 01 da Biblioteca por muitos e muitos anos.

         ... e me tornei escritor!

         Foi uma longa trajetória para uma criança que não dispunha de livros em casa?

Foi! E eu a conto com imensa satisfação, pois a tenho como um grande orgulho.
        
         Agora, posso retornar ao “encantamento” que mencionei no começo deste texto. Hoje, frequento a Biblioteca a fim de rever meus amigos, que são tantos, descobrir as novidades, falar com as pessoas e, principalmente, observar.

         Ali, acompanhando os empréstimos dos usuários, eu me ponho a conversar e vou descobrindo hábitos, razões pelas quais os leitores fazem os seus empréstimos: há o rapaz que vai fazer uma prova, existe a senhora que convalesce de uma doença e permanece tendo nos livros grandes companheiros, a menina que lê por prazer, o garoto de dez anos que leva “Sócrates” e “O príncipe”, de Maquiavel, por vontade própria.



         Além disso, retornam eventos antigos que, felizmente, continuam a me alcançar, como o do menino que, para economizar o dinheiro do ônibus, caminhava até a Biblioteca, pegava seus livros favoritos, e ia, com o discreto valor economizado, comprar  e comer algodão-doce sentado nos históricos bancos de granito de uma tradicional praça...

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Fotografia © Vladimir Ferrigato
        


Manuel Filho, escritor, que, de tanto amar a Biblioteca Monteiro Lobato, acabou ganhando, em seu nome, uma árvore plantada no jardim daquele espaço. Consultem o website do autor no link : Manuel Filho 


segunda-feira, 12 de junho de 2017

Oito do sete


Oito do sete
Cristina Judar

Depois das nove da noite, Donanna precisava de silêncio para ouvir. Ainda de avental, colocava uma cadeira no pátio ao lado da entrada da cozinha e, com a cabeça para o alto, esperava. Quando as copas dos álamos batiam, a noite desabava, ela ouvia o mar, sem nunca tê-lo visto. Contou que havia um oceano ali, bem no meio da mata. Nascido de uma pérola trazida no bico de um passarinho. Ela germinou ainda úmida e fez sua concha com a terra de Roma. Cresceu no quintal e deu em uma bétula de tronco branco. Para Donanna, a árvore tinha cheiro de mar, do qual herdou o verde e o azul para as folhas. E fazia som de onda. Nas noites de sorte e de lua grande, era possível reconhecer até o canto da sereia.

Naquela noite, Magda ia e vinha em uma imagem que se aproximava e fugia. Como a face oculta de Magda, eu queria que certas passagens da minha vida se desconfigurassem, escuras. Ao menos, deixariam de ser peso e, mesmo que surgissem aqui ou ali, não teriam o poder de me fazer sentir inerte sob uma massa compacta. Por tempo indeterminado, eu não queria mais ter noite nem fechar os olhos. Dormiria o sono das manhãs, intenso à semelhança da morte, sono esquecido, ele é um tipo de experiência da qual não se carrega lembranças.

Donnana cozinhava caldos, matava seus galos, gritava com os meninos, ouvia o seu mar. Rick reatou com Jonas, virou Netuno bem-sucedido em ser imagem de referência.

Eu, finalmente, era uma vida entre panelas, lavagens, dessalgadas, embutidos; eles desenhavam meus contornos e eu me sentia como se sempre tivesse estado ali, tão invisível quanto indispensável. Trabalhar os músculos é esvaziar a mente, um amigo meu já dizia, e eu adorava ficar inteira vazia e previsível nas horas contidas entre o amanhecer e o anoitecer. No final do expediente doméstico, terminada a janta, a limpeza, encaminhadas as demandas do dia seguinte, não era só Donanna que ouvia sons impossíveis. Meu anoitecer era um amanhecer.

E tudo surgia vivo, como se para compensar as horas de omissão forçada enquanto me ocupava do plano físico. Eu também era um elemento estranho no quintal de Donanna, algo fora de contexto e alheio à história, bem no meio de Roma. Eu não tinha eixo e adotei o daquela cidade como se fosse meu. Eu não sabia que o meu centro era não ter centro.

*


Vista da janela, Roma poderia ser qualquer lugar. Até a lua ou longe de mim, a rua de casa, a sonda intravenosa que me percorreu quando virei rio e fui parar no hospital. Para esta cidade fui generosa, santa sentida de vilarejo medieval, não mais a sacrílega metropolitana de Magda. Nasci morrendo o que era necessário.

Mesmo que fosse uma vida imprópria, porém, e, até mesmo por isso, vida. Desci às margens do rio Tibre, logo acima de suas barras. Com fogo acima das minhas chamas, observei sua fúria esticada pela cidade, até que me sentisse, com ela, una. Uma Madonna capenga latino- americana, donna devastada, cadela sistina, coitada policística, pobre señora de ventre esvaziado e marido sem critérios, de filhos sem corpo, filhos de massa mezzo compacta, mezzo líquida no fundo vermelho que é persistir em nada. Se à vida tivessem chegado, a eles eu serviria leite de seios e papinhas grossas, mas não mais. Sopas de batatas roxas ou tomates, mas não mais. Ou beterrabas. Eram os herdeiros de uma linhagem estéril. Uma matrona de antisseres eu me tornei. Mulher de lua nunca cheia, apenas crescentes e novas, minguantes e ausentes, no final. Não por ordem de agulha de crochê ou por negação, mas por incapacidade de dar término.

A vida precisa de conclusão pra existir. Mas meus filhos não foram concluídos. Eu não me concluí. Nem rompi as minhas barreiras, não interceptei as minhas trompas, fiquei ainda mais líquida, um pouco mais do que já era. Donanna atravessou todo o quintal para chegar aos fundos, bateu à minha porta, eu precisava esquentar a água do caldeirão para a pasta da Quaresma. Demorei alguns instantes até atender. Tinha medo de, em uma dessas, evaporar, virar nuvem que só vive para correr e se transformar e jamais tem a chance de estar fixa no céu.

*
Whistler, Harmony in blue and silver: Trouville, 1865


Sentimento é mar. Emoção é onda. Eu vi um mar pontilhado quando olhei para o teto escuro do quarto, nas luzes que escapavam pelas frestas das venezianas havia uma composição aleatória, porém fixa, nas noites que se sucediam, presença contínua naquele trecho de cimento branco. Um oceano formado por um sem-número de gotas; gotícula eu, da vida. Feliz por pertencer a algo que não pode ser contado pelo fato de já ter nascido diluído, capaz de revolver entranhas e superfície em uma só massa aquática e indivisível, sem cara, impressão digital, cabelo ou víscera. Infeliz pela insignificância de ser diminuta e dispensável.

Se eu morrer, o mar não vai deixar de ser mar. Esse, aliás, é um sentimento comum quando se está cercada por coisas grandiosas e admiráveis, quando os lugares e coisas roubam o destaque das pessoas apagadas em suas peles, cabelos e digitais, empobrecidas diante das ruínas de cartões-postais. Em Roma, alguns homens estão dispostos a concorrer com sítios arqueológicos, em um embate desleal e já vencido, por isso tão gritadores, efusivos, seus estômagos carregados de paixões. Os homens se veem como torres. As mulheres no lugar de cisternas. Crianças-pontes. De pele e carne, uma cidade.

                                                      XXX




Cristina Judar é escritora e jornalista, autora e roteirista das HQS Lina (Editora Estação Liberdade) e Vermelho, Vivo (Devir). Seu livro de contos Roteiros para uma vida curta (Editora Reformatório, 2015) recebeu Menção Honrosa no Prêmio SESC de Literatura 2014. Em 2015, durante uma residência artística com foco em literatura na Queen Mary University of London, deu origem ao projeto de prosa poética Questions for a Live Writing e passou a integrar o Archive of The Now, uma coleção digital de poetas contemporâneos. Contemplado pelo ProAC de Literatura 2014, Oito do sete é o seu primeiro romance.

segunda-feira, 22 de maio de 2017

Filha do trovão e do vento






Identidade
Meu nome é Elizandra
Filha do trovão e do vento...
Gosto de pensar as palavras
...ler os silêncios
...brincar com os livros
...amar é o verbo que mais sei conjugar
Passado, presente, futuro...
Eis que um dia rascunho... maré e terra...
Terra e maré... sou de água, mas sou de terra
Sou de terra e de mar
Quero sentar na areia, receber de leve uma maré
Amar com calma e velocidade
Com velocidade amar....




Meio-termo
Cansei dessa minha poesia educação
Com pernas cruzadas para não mostrar a calcinha
Dessas palavras cheias de entrelinhas
Que não dizem à que veio, cantadas não entendidas
Esse ar de “mocinha” escondendo a “puta”
Essas caras e bocas que não gritam e nem esperneiam

Cansei dessa minha poesia educação
Tão comportada, que irrita
Sempre como faca de dois gumes
Querendo sim, querendo não
Tão boazinha, que gosta de sal e açúcar
Sempre agridoce...
Essa atitude molhinho de pimenta
Que nem arde e nem tempera
Essa quentura banho-maria
Que não queima e nem gruda.


Rio
Hoje amanheci rio,
Não fico no mesmo lugar
Minhas margens não me comprimem
Minhas águas estão a navegar

Hoje amanheci rio,
Vou beber e me banhar
Não quero barco!
Hoje sou redemoinho, pode deixar
Não vou me afogar

Hoje amanheci rio,
Quero anoitecer me encontrando com o mar
Pescar estrelas
E adormecer na brisa do ar

Coroa Imperial
A Salamanda Gonçalves

Meu cabelo tem cheiro de flor...
Seja gardênia, violeta, rosas vermelhas
Livre! Ele exala e transmite amor
Embaralhado, embaraçando o mundo

Meu cabelo tem cheiro de flor...
Canela, açúcar mascavo e cravo
Mil cheiros, mil flores...
Perfumes de luta, espinhos da resistência

Meu cabelo tem cheiro de flor...
Amarílis - orgulho -, brinco-de-princesa
Mensageiro, como flor-de-lis
Vida - dente-de-leão, felicidade - flores do campo

Meu cabelo tem cheiro de flor...
Insistente como cacto flor no deserto
Tulipa vermelha, encanto de girassol
Coroa imperial que transborda poder!


Abelha mandaçaia
Tão solitária e negra como eu
Abelha Mandaçaia...
... sem produção de mel
Desabitada a procura de flor
Para bebericar do seu encanto...

Lápis de olhos...
... a esconder águas salgadas
Como não consolidar
este isolamento, que me consome?
Esta falta de mãos grudadas
... pele que não afaga
Estou rifando essa soledade!
Trançar, eu quero, mãos pretas...

É querência de mar, e não de oásis
Perenidades entrelaçadas...
Em estações lunares e solares...

Meu viver tornou-se deserto...
Os dias quentes e as noites congelantes
Um corpo sem afeto...
Repleto de roedoras,
Serpentes
E lagartas...

Peles bem alvas...
Alvejando-me por serem preferidas...
Será mesmo que elas resolvem
esses traumas de pretos meninos?

Em outras facetas, sou eu, serpente
Cascavel do deserto, como queira...
Movimentando-me em silêncio
Para que as inimigas não me vejam...

Sentimentos fósseis...
... expostos pelas erosões
A vida inteira sem beber águas...
Longos jejuns sem morrer...
Força bruta que me dilacera
Estes secos dias, sem chuvas...
Só poeiras machucando minhas retinas.


Em legítima defesa
Só estou avisando, vai mudar o placar...
Já estou vendo nos varais os testículos dos homens,
que não sabem se comportar
Lembra da Cabeleireira que mataram, outro dia,
E as pilhas de denuncias não atendidas?
Que a notícia virou novela e impunidade
É mulher morta nos quatro cantos da cidade...

Só estou avisando, vai mudar o placar...
A manchete de amanhã terá uma mulher,
de cabeça erguida, dizendo:
- Matei! E não me arrependo!
Quando o apresentador questiona – lá
ela simplesmente retocará a maquiagem.
Não quer esta feia quando a câmera retornar
e focar em seus olhos, em seus lábios...

Só estou avisando, vai mudar o placar...
Se a justiça é cega, o rasgo na retina pode ser acidental
Afinal, jogar um carro na represa deve ser normal...
Jogar a carne para os cachorros procedimento casual...

Só estou avisando, vai mudar o placar...
Dizem, que mulher sabe vingar
Talvez ela não mate com as mãos, mas mande trucidar..
Talvez ela não atire, mas sabe como envenenar...
Talvez ela não arranque os olhos, mas sabe como cegar...
Só estou avisando, vai mudar o placar...

Todos os poemas publicados no livro – Águas da Cabaça, Coletivo Mjiba, 2012.

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Elizandra Souza é escritora e jornalista, editora responsável pela Agenda Cultural da Periferia,  integrante do Sarau das Pretas e fundadora do Coletivo Mjiba -Jovem Mulher Revolucionária, que desenvolve ações focadas no protagonismo das mulheres negras e periféricas. Ativista cultural há 16 anos com ênfase na difusão da Literatura Negra e Feminina nas periferias de São Paulo. Coautora de Punga com o poeta Akins Kinte, Edições Toró(2007), autora do livro de poesias Águas da cabaça (2012) e organizadora da antologia Pretextos de Mulheres Negras (2013) e Terra Fértil, de Jenyffer Nascimento (2014), traz a experiência e a estética da produção literária que condensa periferia, negritude e feminismo. Idealizadora do evento Mjiba em Ação realizados no CEU Três Lagos nos anos de 2004,2005, 2012,2013 e 2014. Participou do Festival Internacional de Poesia em Havana (Cuba) em 2016.Realiza cursos e oficinas sobre a visibilidade da Literatura Negra e Feminina em parceria com Carmen Faustino. Atualmente também é terapeuta holística com formação em Aromaterapia e Perfumaria Botânica.