quinta-feira, 27 de abril de 2017

Lições de casa




Lições de casa

por Maria Nilda de Carvalho Mota ( Dinha) 
  



Três lições de casa

Lição primeira: como nomear seu bebê

Era o primeiro neto
Destinado a ser mais velho
De uma linhagem de uns trinta.
A mãe resolvera chamá-lo
Aristides Ricardo
Nome imponente de filósofo
E rei – unidos numa nova
Personalidade.
Era o ano de mil
Novecentos e noventa e dois
Explodia nas rádios uma música
De uma alegria patética:
“Biluzinho tetéia”.
E o menino era tao gutiguti ti fofula nenê gluglu
Que o imponente Aristides
Ficou apenas

Bilu.

Lição segunda: como lidar com o fim do mundo 


Era o ano de mil
novecentos e noventa e nove.

Pairava no ar uma angústia
dizia-se que o mundo

ia se acabar.
No ano seguinte o menino

começaria a ir  à escola.
Que ele queria ser padre.

Só que, de vez em quando,
se via nele uns gestos

de inquietação profunda:
Era um engolir em seco

um pescoço que se retorcia duro
as pernas que se balançavam muito.

Angústia menina e calada.
Que foi, Bilu? Não quero

Ir para a escola.
Mas a escola é legal

você vai aprender muita coisa
e pérolas e diamantes

os segredos mais profundos
saíam da minha boca

viajavam sete mares
dormiam em tantos castelos

planetas e povos distantes
mas não entravam em suas orelhas.

E aquela carga rara
esse mundo que se abria

mais pesava nos seus ombros.
Aristides resistia.

Contei sobre o mundo todo
que se escondia embaixo

das letras no subterrâneo
das confusas linhas dos livros.

Falei-lhe de amigos novos
e das chaves que estariam

à sua disposição na vida.
Ele olhou bem nos meus olhos

eu via
a angústia – sapo gordo

dançando na sua língua.
O menino engoliu com cuidado

antes de gritar aos prantos
a sua sentença única:

Mas eu não sei LEEEEEEEEEER!!!!!

Eu ri.
Mas chorei junto.


Lição terceira: como ressuscitar seus meninos 


Era o ano de dois mil
e seis.
Aristides Ricardo Bilu

Não virara padre.
Aristides Ricardo
não virara filósofo.

Aristides Ricardo ganhara
uma certidão de óbito
com seu nome impresso em caixa alta.

Um dia, me contara com tristeza
que "o tempo passa devagar na escola"
e isso lhe destruía

e o ABC que aprendera. Aprendera
com a vida. Lição de morte,
com a polícia. Pássaro que voa

de noite e de dia.
Aristides Ricardo Bilu
Virou símbolo na família

do garoto que queríamos
e nenhum de nós podia
Ajudar.

Aristides Ricardo Bilu
de filósofo rei gutiguti
virou símbolo da luta

que ainda temos por fazer
pra tornar nossas escolas
espaços de vida, não morte

espaços de encanto
não cortes
onde o sonho, não a sorte

prolonguem as vidas
e perpetuem as memórias
dos nossos.


Ode ao Zé Povo

(Cantiga de zéporvinhar)

Zé Povo é mato.
Zé Povo é o cão.
Zé Povo, Zé Polvo, Zé Porvim, Zé Polvim, Zé Povim, Zé Porvinhar:

Ze Porvim ninguém te gosta.
Ninguém vai teadorar.
Mesmo assim é verbo novo:
zé porvim ↔ zéporvinhar.

Eu zéporvinho
Tu zéporvinha

Ele zéporvinha
Nós zéporvinhamo
Vois zéporvinhais
Eles zeporvinha


E são muitos os nomes
sentido
é um só
Zé povo que nasce
a qualquer hora
em qualquer lugar.


Zé Povo é mato.
Zé Povo é o cão
danado, sarnento,
se espalha no vento e
brota do chão.

É verbo agora
ação nomeada
conjugada
esperada
rimada
(bem pobre
- zé povo do rico
é repórter)

Zé Povo do povo
não recebe ordens
faz conta de tudo
só pelo gostinho
de zéporvinhar.

Zé Povo é mato.
Zé Povo é o cão.

Tem pouco problema o Zé Povo do povo
- seu problema é o dos outros.
"Comunitária inspiração".

Zé Povo nos cuida
Zé Povo protege
se vem a polícia
Zé Povo percebe
e fica de olho
atento à novela
(Terror na Esquina
de farda e revólver)

Zé povo e seus olhos de câmeras digitais
Zé povo sem fio, internet a milhão
Zé povo e o ouvido microfone fantástico
Zé povo e a boca amplificadora de voz
Zé povo e a tomada ligada pra sempre
Zé povo lan house
ambulante
telecentro da paz
observa e inventaria
griot sem amparo
homem-otário
mulheres sem rádio
como nós,
todos nós.

XXX




Maria Nilda de Carvalho Mota, Dinha, é poeta, autora dos livros De passagem mas não a passeio (2006/2008), Onde escondemos o ouro (2013/2017) e Zero a zero: Quinze poemas contra o genocídio da população negra.

segunda-feira, 24 de abril de 2017

Toca tambor...toca




Toca tambor...toca

Isabete Fagundes Almeida


LANCEIROS NEGROS

Ao longe já podíamos ver a grande multidão de faces preta
Lanças longas e olhar firme de guerreiros
Podíamos sentir a energia daqueles combatentes
Que entraram em uma guerra com os verdadeiros ideais
“A conquista da liberdade”
Lutando ao lado dos Farroupilhas
Foram colocados como buchas de canhão
...........Habilidosos guerreiros
Mantiveram-se implacáveis até aquele fatídico dia
- No conflito poupe o sangue brasileiro,
Particularmente da gente branca...
E assim aconteceu na noite de 14 de novembro
“O Massacre de Porongos”
A história nos ensinou a reverenciar outros heróis
Mas na resistência e informações
Vamos construindo a verdadeira versão
Temos no piquete Lanceiros Negros
A patroa Araci e o patrão Centeno
e outras centenas de pessoas fazendo essa conscientização
da marcha a chama que clama o reconhecimento e reparação



OBSTÁCULOS

Sou negra...
Sou mulher...
Sou guerreira...
Pele suada... surrada
Que não desiste...
Insiste em assumir sua negritude.
Que ama, mas não é só prazer
É muito mais... é determinação!
Esta alma guerreira
De Dandaras, Anastácias e N’zingas
Que me habitam em mim
Inquieta-me
Explora meu corpo... aflora...
E a cada curva bem ou mal delineada
Vai superando obstáculos...
Nessa Guerra
Contra todas as formas de violência.
Sou negra...  Guerreira
Sou mulher...
Sou ancestralidade!
Tenho uma história de sacrifício, vitórias e superação
 Exijo respeito!


CAROLINA GUERREIRA

Nasceu de pele preta, pobre, favelada
Nasceu como muitos...
Fazendo parte dessa escravidão moderna
“A fome”

Nasceu, negra, mulher, guerreira
Não se acomodou diante de tanta miséria
 E fez de seu dia a dia uma batalha de sobrevivência

Nasceu para viver em uma sociedade desigual... cruel.

Nasceu para ser ignorada
Sem oportunidades de ascensão social

E são tantas que nascem “Carolinas”
Algumas são de Jesus
E outras tantas “nem tanto”

São as Carolinas, Marias Guerreiras
Que com a persistência e a garra
Do nosso “povo negro” vão vivendo
Sobrevivendo... morrendo.
Em eternos “quartos de despejo”



SOMOS TODOS GUERREIROS !

É na roda ... é no circulo...mantendo a tradição,
Que estamos reunidos fazendo a transformação.
Somos todos descendentes da força e luta dos Háussais,
Zumbi, Luiza Mahin e tantos outros.

Somos aqueles que cantam, que dançam, que escrevem, que declamam..mas que também, brigam, questionam, vão as ruas.

Somos  todos “Oliveira Silveira” numa busca contínua de maior conscientização.

As lutas de nossos antepassados não foram em vão
Nós de alguma forma continuamos fazendo as insurreições,
na conquista de um ( ayê )  mais igualitário

Toca tambor... toca
Toca no fundo do coração
Faz emergir essa força
Empodera essa nação

Que os Orixás nos acompanhe....
 e  Oxalá nos ilumine
Asé,  paz,  Asé!


Xxx



Isabete Fagundes Almeida, Gaúcha de Porto Alegre, formada em pedagogia pela PUCRS e pós graduada em Neuropsicopedagogia, coordenadora do grupo Haja Luz – Acervo Cultural Afrodescendente e poeta, participante do Sopapo Poético Ponto Negro de Poesia com poemas publicados no livro Pretassência.



sexta-feira, 21 de abril de 2017

Pixaim elétrico


Pixaim elétrico
                                                                          Cristiane Sobral


Petardo

Escrevi aquela estória escura sim
Soltei o meu grito crioulo sem medo
Pra você saber
Faço questão de ser negra nesta cidade descolorida
Doa a quem doer
Faço questão de empinar o meu cabelo cheio de poder
Encresparei sempre em meio a esta noite embriagada de trejeitos brancos e fúteis
Escrevi aquele conto negro bem sóbria
Pra você perceber de uma vez por todas
Que entre a minha pele e o papel que embrulha os seus cadernos
Não há comparação parda cabível
Há um oceano
O mesmo mar cemitério que abriga os meus antepassados assassinados
Por esta mesma escravidão que ainda nos oprime
Escrevi
Escrevo
Escreverei
Com letras garrafais
Vermelho vivo
Pra você lembrar que jorrou muito sangue.





Sonho de consumo

Se você me quiser vai ser com o cabelo trançado
Resposta na ponta da língua
Teste de HIV na mão
Se você me quiser desligue a televisão
Leia filosofia e decore o Kama-Sutra
Muito bem!

Se você me quiser esteja em casa,
Retorne as ligações, e traga flores
Não venha com teorias sobre ereção
Ou centímetros a mais

Nem sempre vou querer sexo
Nem sempre vou dizer tudo, ou acender a luz
Posso usar ternos ou aventais
Qual a diferença?
As noites serão sempre intensas à luz de velas

Se você realmente me quiser,
Ouse digerir a contradição
Ajude-me a ser uma mulher,
Diante de um homem

Quem disse que seria fácil?


Não vou mais lavar os pratos

Não vou mais lavar os pratos
Nem vou limpar a poeira dos móveis
Sinto muito
Comecei a ler
Abri outro dia um livro e uma semana depois decidi
Não levo mais o lixo para a lixeira
Nem arrumo a bagunça das folhas que caem no quintal

Sinto muito
Depois de ler percebi a estética dos pratos
A estética dos traços, a ética, a estática
Olho minhas mãos quando mudam a página dos livros
Mãos bem mais macias que antes
Sinto que posso começar a ser a todo instante
Sinto qualquer coisa

Não vou mais lavar
Nem levar
Seus tapetes para lavar a seco
Tenho os olhos rasos d’água
Agora que comecei a ler quero entender
O porquê, por quê? E o por que

Existem coisas
Eu li, e li, e li
Eu até sorri
E deixei o feijão queimar...
Olha que o feijão sempre demora a ficar pronto
Considere que os tempos agora são outros

Ah, esqueci de dizer
Não vou mais
Resolvi ficar um tempo comigo
Resolvi ler sobre o que se passa conosco
Você nem me espere
 Você nem me chame
 Não vou

De tudo o que jamais li
De tudo o que jamais entendi
Você foi o que passou
Passou do limite, passou da medida, passou do alfabeto
Desalfabetizou
Não vou mais lavar as coisas e encobrir a verdadeira sujeira
Nem limpar a poeira e espalhar o pó daqui para lá e de lá para cá
Desinfetarei as minhas mãos e não tocarei suas partes móveis
Não tocarei no álcool
Depois de tantos anos alfabetizada, aprendi a ler
Depois de tanto tempo juntos, aprendi a separar

Meu tênis do seu sapato
Minha gaveta das suas gravatas
Meu perfume do seu cheiro
Minha tela da sua moldura
Sendo assim, não lavo mais nada, e olho a sujeira
No fundo do copo

Sempre chega o momento
De sacudir, de investir, de traduzir
Não lavo mais pratos
Li a assinatura da minha lei áurea escrita em negro maiúsculo
Em letras tamanho 18
Espaço duplo
Aboli

Não lavo mais os pratos
Quero travessas de prata
Cozinhas de luxo
E jóias de ouro
Legítimas
Está decretada a lei áurea.



Pixaim elétrico

Naquele dia
Meu pixaim elétrico gritava alto
Provocava sem alisar ninguém.
Meu cabelo estava cheio de si

Naquele dia
Preparei a carapinha para enfrentar
a monotonia da paisagem da estrada
Soltei os grampos e segui
de cara pro vento, bem desaforada...
Sem esconder volumes nem negar raízes.

Pura filosofia
Meu cabelo escuro, crespo, alto e grave...
Quase um caso de polícia
Em meio à pasmaceira da cidade
Incomodou identidades e pariu novas cabeças

Abaixo a demagogia
Soltei as amarras e recusei qualquer relaxante
Assumi as minhas raízes
Ainda que brincasse com alguns matizes
Confrontando o meu pixaim elétrico
 Com as cores pálidas do dia.
Pixaim, elétrico!




Flor

Tenho uma cicatriz incandescente de dor
Mas é só por dentro
Por fora desenhei uma flor



A mão e a luva

Eu hoje comi um poema com pão
Seco
Ontem não fiz nenhuma refeição
Amanhã talvez uma sopa de letrinhas
Há dias que não brota poema algum
Acordo e mantenho o jejum
Até que anoiteça
Mas as palavras um dia brotam
Como água dos rios
Como chuva
Há poemas que caem
Há poemas que cabem
Como uma luva
E alimentam a alma.



Retina negra

Sou preta fujona
Recuso diariamente o espelho
Que tenta me massacrar por dentro
Que tenta me iludir com mentiras brancas
Que tenta me descolorir com os seus feixes de luz

Sou preta fujona
Preparada para enfrentar o sistema
Empino o black sem problema
Invado a cena

Sou preta fujona
Defendo um escurecimento necessário
Tiro qualquer racista do armário
Enfio o pé na porta da casa grande
E entro.




Sustento

Quero uma poesia pão
Muito além da refeição
Como alimento da alma

Quero uma poesia carne
Que fatie problemas no cerne
E cale o grito dos que tem fome.

Brisa

É preciso resgatar
Das mulheres a delicadeza
A flor mais preciosa
E perfumada
Transformar em suave canto
O grito grudado na garganta
O anseio inesperado
A fúria desmedida
Nas águas repousar o corpo
E entregar os caminhos.


Voo livre

Mulher é bicho esquisito e poderoso
Faz o que dá na telha desde a criação
Ninguém segura mulher não.


Xxx




Cristiane Sobral é carioca e vive em Brasília desde 1990. Escritora, atriz e professora de teatro.  Mestre em Teatro pela Universidade de Brasília, com pesquisa sobre a estética nos teatros negros brasileiros. Dirigiu a Cia de Arte Negra Cabeça Feita, (Teatro) por 15 anos. Imortal cadeira 34 da Academia de Letras do Brasil. Diretora de literatura afro-brasileira no Sindicato dos Escritores.

Publicações:
O tapete voador, contos, ed. Malê, 1ª Ed, RJ, 2016;
Não vou mais lavar os pratos,  poesia, 3ª ed. revisada e ampliada, ed. Garcia, SP, 2016;
Só por hoje vou deixar meu cabelo em paz, poesia, 1ª Ed, ed. Teixeira, DF, 2014;
Espelhos, Miradouros, Dialéticas da Percepção, contos, Ed. Dulcina, 1ª Ed , DF, 2011.
Publica em prosa e poesia desde 2000 na antologia Cadernos Negros, Ed. Quilombhoje (SP), já publicou nos volumes 23-25, 29, 30, 32-38.




segunda-feira, 10 de abril de 2017

Aves de Cassandra



Chiharu Shiota, “The Key in the Hand”, 2015, photo by Sunhi Mang


Aves de Cassandra
Leonardo Tonus

Dans les récits sur l’immigration les métafigures[1] nautiques se sont constituées au fil des années en un véritables ethos du discours sur l’américanité[2]. Elles témoignent des liens que le sujet expatrié établit avec le pays d’accueil tout en assurant la cohésion structurelle et pragmatique de ces récits. Les métafigures nautiques s’érigent ici comme des symboles emblématiques d’une identité fondée sur une expérience commune de la perte d’un espace originel. Le deuil des origines et l’impossible territorialisation du sujet se lisent à travers la mise en scène d’un espace hétérotopique fragile et fluctuant qui tend à opposer mobilité et fixité, refoulement et mémoire, mélancolie et deuil. La barque rouillée, le vaisseau fantôme et le navire naufragé constituent autant de façons d’exprimer une tension qui parcourt l’ensemble des romans sur l’immigration.
As Aves de Cassandra évoque le parcours individuel d’un narrateur-personnage de l’enfance à l’âge adulte. Le roman s’appuie en grande partie sur les modalités du récit d’enfance autobiographique mettant en scène les différentes étapes qui ont façonné la personnalité du sujet énonciateur : la famille, le sexe, l’amour, la mort, etc. Parmi ces expériences archétypales, l’acquisition du langage (verbal ou écrit) occupe une place privilégiée au sein du récit.


A maintes reprises le narrateur fait état de son étonnement face aux mystères du langage. Il commente le décalage existant entre différents systèmes linguistiques et observe comment le langage est un facteur d’exclusion.  La bonne manière de prononcer un nom peut en effet conférer prestige à son interlocuteur, ce qui lui permet de classer l’humanité en deux catégories : les victorieux reconnus verbalement et socialement et les déchus invisibles et muets.  Sa démarche taxinomique le conduit par ailleurs  à se pencher sur son propre cas et sur sa façon de s’exprimer, ce langage hybride qui lui vaut le surnom de « língua enrolada ».  Composé d’une prosodie et d’une syntaxe curieuse, ce langage comprend des mots portugais traduits de façon littérale du danois et d’un danois trop châtié qui donne l’impression à ses interlocuteurs d’être en présence d’un personnage issu directement des livres d’Andersen ou de J. P. Jacobsen. L’acquisition du langage est un thème récurrent dans de nombreuses autobiographies d’écrivains. Dans As Aves de Cassandra il sert d’amorce à une réflexion sur la naissance de la vocation d’écrivain.
Le thème de l’acquisition du langage justifie le projet d’écriture qui tend à brouiller les limites entre les régimes fictionnels ou référentiels. Entre ces deux modes d’énonciation se loge problématiquement les tentatives du narrateur de révéler les énigmes autour de la personnalité de son père ainsi que les rapports qui le lient à son ancestralité.  Tout au long du récit, il multiplie les références livresques qui participent à sa formation intellectuelle. La mobilisation du dispositif classique du narrateur-lecteur  favorise une réflexion sur les possibles filiations culturelles et littéraires et  contribue, en outre,  à une réflexion sur la question des fondations identitaires[3].
Parmi les nombreux ouvrages et auteurs évoqués, une place privilégiée est conférée aux romans d’aventures et aux récits de naufragés dont celui de la Bounty que le narrateur ne cesse de réécrire tout au long du récit. Clairement annoncé dans le texte, ce projet s’inscrit dans une pratique de lecture inspirée par le désir de réévaluation du sens initial de l’hypotexte vernien jamais cité dans le roman[4].
O Motim do Bounty. Mas não acredita no desenlace chocho, especula outras soluções. Aquele Fletcher Chirstian que sumiu do mapa era maior que Jasão, que Ulisses, que o Cavaleiro da Triste Figura. Era maior que o Império Britânico. Simplesmente, não podia acabar, muitos menos assim[5].
Le récit s’ouvre in media res à la veille de la mutinerie décrite chez Jules Verne.  L’auteur se sert d’un jeu d’opposition similaire à l’hypotexte ce qui accentue l’aspect dramatique de la scène. Mais contrairement au texte source l’action est très vite délaissée au profit d’un mouvement analeptique descriptif grâce auquel le narrateur brosse un nouveau portrait social, intellectuel et psychologique des protagonistes. La recontextualisation de l’intrigue va de pair avec la réévaluation du statut sémiologique des personnages, de leur rôle thématique et de leur importance hiérarchique. 


Lecteur de Rousseau et des romantiques anglais, Fletcher est dans l’hypotexte vernien un jeune rebelle qui rejette toute sorte d’autorité. Amateur de vins et de femmes, c’est un personnage grossier dépourvu de toute capacité de réflexion. Sur le bateau il prêche en plein 18ème  siècle une religion fondée sur la liberté du corps, essaie de mettre en place un système décisionnaire démocratique et se fait le défenseur des peuples primitifs et de leurs cultures. Il s’oppose à Bligh, respecté par tout l’équipage mais dont la rigidité calviniste révèle un pragmatisme sans faute et un grand sens des responsabilités.
Dans son roman, Per Johns procède à une neutralisation du discours manichéen du texte vernien. Cela explique la suppression des deux séquences narratives finales du récit initial dont les sous-titres (« abandonnées et naufragées ») soulignaient déjà cette lecture moralisatrice. Chez Per Johns, Fletcher cesse d’être le jeune impulsif qui se rebelle sans raison apparente tandis que le caractère grossier de Bligh est atténué. Ce dernier est un homme cultivé doté de grandes qualités humaines. Lors de l’épidémie survenue sur son bateau, il prête volontiers ses appartements aux membres malades de l’équipage. En outre, il se montre capable de le raisonner et de comprendre les faiblesses de son jeune compagnon dans les moments les plus tendus.  Per Johns réhabilite le personnage de Bligh tout en rééquilibrant les rapports de force entre les deux protagonistes.
E não se digue que o manequeísmo assim constituído agrupe do lado de Fletcher os bons e, do lado de Bligh, os maus. Ao contrário, os que são fiéis a Bligh […] são pessoas da melhor formação. […] Já  do lado de Fletcher juntam-se alguns dos piores elementos de bordo[6].
Enfin, la réécriture hypertextuelle introduit une transformation pragmatique dans la logique textuelle qui passe par la réinterprétation du mobile de la révolte de Fletcher. Elle s’inscrit ainsi moins dans le cadre d’une simple révolte personnelle face à l’humiliation subie publiquement que d’une contestation des dérives de la pensée cartésienne selon laquelle l’homme pourrait, par le savoir, se faire maître et possesseur de la Nature.  Cette dernière question sera développée dans la scène qui précède la mutinerie où Bligh explique de façon détaillée son attitude tout en parodiant la pensée cartésienne.   
O homem vive há cerca de dois mil anos sobre a face da Terra lutando contra a natureza, que o tem maltratado de todas as possíveis maneiras. Aqui também, se não a dominarmos, seremos dominados, talvez até erradicados. […] acredito que a natureza nos foi dada por Deus para que a moldássemos conforme os desígnios humanos. […] e mais: foi-nos dada a escolha de usá-la, bem ou mal, atente para isso, sr. Nelson. Cabe fazê-lo bem[7].
Selon Descartes :
Car [ces connaissances] m’ont fait voir qu’il est possible de parvenir à des connaissances qui soient fort utiles à la vie, et qu’au lieu de cette philosophie spéculative, qu’on enseigne dans les écoles, on peut en trouver une pratique, par laquelle connaissant la force et les actions du feu, de l’eau, de l’air, des astres, des cieux et de tous les autres corps qui nous environnent, aussi distinctement que nous connaissons les divers métiers de nos artisans, nous les pourrions employer en même façon à tous les usages auxquels ils sont propres et ainsi nous rendre comme maîtres et possesseurs de la nature. Ce qui n’est pas seulement à désirer pour l’invention d’une infinité d’artifices, qui feraient qu’on jouirait, sans aucune peine, des fruits de la terre et de toutes les commodités qui s’y trouvent, mais principalement aussi pour la conservation de la santé, laquelle est sans doute le premier bien et le fondement de tous les autres biens de cette vie[8].


A maintes reprises, il confirme cette posture devenue entretemps support d’un discours de négation de l’altérité.  
Se não nos impusermos, pereceremos. Não se tem notícia de civilização que se tivesse imposto com passividade e subserviência [...] acredito que a Natureza nos foi dada por Deus para que a moldássemos confrome os desígnios humanos. Ela é passiva, está à espera de nossa operosidade justamente o que não têm esses indolentes polinésios vivendo ao deus-dará de braçàà estendido para as benesses tropicais. E mais : foi nos dada essa escolha de usá-la, bem ou mal ; atente para isso[9].
Sorte d’enclave au sein du récit premier, les aventures de Bligh et Christian Fletcher interrompent l’ordre événementiel dans le roman As Aves de Cassandra. Sa lisibilité est assurée par des effets de décodage qui annoncent, encadrent et dévoilent au lecteur le processus de transposition ainsi que la nature réfléchie du texte transposé. Dans l’épilogue l’auteur souligne, par le jeu de mise en abyme, les effets de ressemblance entre son récit et le texte vernien. Dans As Aves de Cassandra, l’histoire des naufragés de la Bounty n’est pas uniquement l’histoire d’une aventure maritime. Elle est le prétexte à une réflexion sur les rapports entre père et fils, sur la question de la dérive du pouvoir, et, enfin, sur la capacité à tout être de s’en affranchir. L’hypertexte vermien préfigure ainsi l’émergence d’un autre naufragé et révolté de l’histoire littéraire : Robinson Crusoé.  

Per Johns, in memoriam ( 1933-2017)


Extrait inédit de l’habilitation à diriger des recherches Parcours d’immigrants dans la littérature brésilienne des années 1980 soutenue le 26 novembre 2016 à l’Université de Rennes II.




[1] Selon Gérard Bouchard, « Le concept de figure désigne toute représentation ou tout système de représentations élaboré par un énonciateur (en l’occurrence, le romancier) et qui est susceptible de se diffuser, de prendre place dans l’imaginaire et de s’y ancrer. Quant à la métafigure, elle est une représentation matricielle qui structure l’ensemble de l’imaginaire. Si l’on veut, c’est une figure qui comprend, qui subsume toutes les autres. Elle crée la tension fondatrice du roman et en fournit la clé. On pourrait dire en ce sens que le bâtard se présente comme l’une des métafigures possibles des cultures du Nouveau Monde». Gérard Bouchard, « L’Amérique, terre d’utopie », Conférence d’ouverture du Colloque interaméricain (Brésil-Canada) des sciences de la communication, Salvador de Bahia (Brésil), Septembre 2002, p. 9.
[2] Zilá Bernd, « de trânsitos e de sobrevivências », in : Regina Zilbermann e Zilá Bernd, O viajante transcultural. Leituras da obra de Moacyr Scliar, Porto Alegre, EdiPICRS, 2004, p. 197-2009.
[3] Claire Le Brun, « Edgar Alain Campeau et les autres : le lecteur fictif dans la littérature québécoise pour la jeunesse (1986-1991) », in : Voix et Images, volume 19, numéro 1 (55), automne 1993, p. 151-165. [En Ligne]. URL : http://id.erudit.org/iderudit/201074ar
[4]Malgré l’absence d’un hypotexte explicite, les allusions au récit de Jules Verne sont facilement reconnaissables. Le projet de récriture s’appuie, quant à lui,  sur différents procédés hypertextuels parmi lesquels: les transformations structurelles et sémantiques ; la transdiégiétisation la transvocalisation, la transmotivation et  la transvalorisation.
[5] Per Johns, op., cit., p. 118.
[6] Per Johns, op., cit., p. 137.
[7] Id., Ibid., p. 141.
[8] Descartes, Discours de la méthode, 6ème  partie, Bibliothèque de la Pléiade, Éd. Gallimard, 1966, p. 168.
[9] Per Johns, op., cit., p. 150.