segunda-feira, 21 de agosto de 2017

A Biblioteca que inventei

Biblioteca Lapidea, Karl Chilcot

A Biblioteca que inventei

Ricardo Queiroz Pinheiro


Ao navegante, entretanto, jamais acomodar-se.
É preciso, ao seguir-se a rota, apressá-la,
Ser mais ágil que o rio
E colher a cidade antes que seu leito o faça.
Trecho de “O Homem É o Rio, o Rio É o Mundo”  –  Jose Carlos Capinan


O meu bairro ainda era bacana. As ruas mesclavam o já antigo paralelepípedo com o moderno asfalto. Mas não eram ainda ruas de verdade. No sentido de ruas onde só se passam carros, realmente, elas não eram de verdade. Minguavam os carros e os jogos de rua dominavam. A meninada ficava contente. Todo mundo solto inventando sua infância. Claro, os tempos permitiam isso, o passar das horas era outro e os temores bem diferentes.

No meio do embate futebolístico era só dois carros passarem em sequência, que vinha a frase:
– Isso aqui tá parecendo rua – logo depois o jogo seguia em paz.
O bairro, a rua, a vida era toda nossa.

Futebol, Candido Portinari, 1935

O meu bairro era bonito e o que não estava nele parecia distante. Sair de lá, era ir ao centro, ir à “cidade”, os outros bairros eram apenas passagem, me bastava o meu. Dois três quilômetros e já mudava a referência. O centro. Os prédios eram diferentes, as pessoas passavam bem rápido. Era outro tempo, era um tempo diferente das ruas vazias onde carros eram exceções. Tudo envolvia mistério. A cidade era a “cidade”.

Tinha a pastelaria, os armarinhos, as lojas de roupas de senhores e senhoras. As lojas de sapato, onde ficava os tênis, entre eles o Kichute para dar os (mal) tratos à bola. Ir ao centro era coisa especial. Cada rua do centro tinha sua história verdadeira, inventada, não era diferente no bairro, mas no centro tudo era maior. Cada lugar tinha sua marca.

Havia prédios que não se apresentavam tão facilmente, não se destacavam, não eram óbvios. Não tinham placas evidentes, nem produtos a mostra, quase nunca tinha gente em frente deles. Poderiam ser qualquer coisa, coloridos, sem cor, sisudos, simpáticos, abandonados. Prédios sem nome.

Um deles tinha um jardim no entorno e portas de vidro. Não sabia o que era muitas vezes passava em frente de ônibus e ele ainda não despertara qualquer curiosidade. O que se fazia o que tinha dentro desse prédio, não era facilmente identificável. De longe eu podia distinguir móveis cinza que não contrastavam com a cor cinza externa. Era uma massa só, homogênea.

Um dia cheguei perto e pude ver uma roleta, para além dela, uma senhora com um olhar atento, e lá no meio de tudo, livros. Não passei a roleta, fiquei parado, envergonhado, curioso, mas sem força para entrar.  Era a biblioteca pública. Demorei a entender o que rolava. Capítulo grande da minha história começava ali.
Na minha escola tinha algo chamado biblioteca. Era sempre fechada ou restrita. Não despertava interesse de ninguém. Lembro-me da única vez que entrei sem hesitar e não foi bom, nada bom. A pessoa que lá estava ensaiou um grunhido querendo ser palavra e instantaneamente atingiu seu objetivo. Saí dali rapidamente. Biblioteca para mim passou a ser um impedimento.

Claudio Parmiggiani

A biblioteca pública era o prédio que eu não identificava. Era algo a se entrar, mas tinha o tal nome do impedimento: biblioteca.

O ônibus que passava perto da biblioteca tinha ponto final bem perto de casa.  Com ele seria rápido chegar, quinze, vinte minutos. Tinha a opção de ir a pé. Gostava mais dessa. Passar em frente ao Corpo de Bombeiros, depois o hotel grande, subia um pouco e saía defronte ao cemitério. Perto do cemitério, moravam a avó e os tios. Mais abaixo tinha a prefeitura, logo em frente às três ruas que compunham o centro. A terceira rua mais a direita, era a mais estreita, bem no meio dela, a biblioteca.

Entrar na biblioteca foi um processo longo, nem sei dizer mais a primeira vez. Foi uma longa primeira vez. Livros de lado, números indecifráveis, assuntos demais. Pessoas quietas, pessoas olhando pros livros, pessoas que atendiam olhando para lugar nenhum.

Sempre alguém olhando e dizendo não. Ao menos a partir daquele momento eu sabia que não era só o prédio cinza. Os livros tinham cor na capa, mas as pessoas ainda eram o cinza.

A primeira pessoa colorida que me atendeu perguntou sem rodeios o que eu queria. É certo que a esta altura nem lembro mais o que pedi. Mas passou a ser algo fora do cinza, colorido, a pessoa, o pedido, a situação, coloriram a biblioteca. Foi um pedido atendido.

Perder o rumo no meio das estantes e descobrir coisas tornou-se um grande barato. Não queria orientação. Desorientava-me diante da organização dos livros perfilados, das mesas alinhadas, dos pedidos de ordem e do silêncio. A mente passava a olhar aquela confusão de informação de uma maneira simpática.

Obviamente, para mim era só confusão, mas hoje consigo emprestar esta poesia. Eram tardes longas onde eu perdia o futebol das ruas protegidas da minha vila. Perdia a bola do jogo e ganhava um espiral de curiosidades.

Intuía sempre que as minhas idas à biblioteca pública eram inúteis, ficava sambando nas estantes, insistia em não pedir ajuda (teimosia) e pegava livros incompreensíveis, mesclados com livros “fáceis” que fizeram minha cabeça.

Não vou citar livros, nomes de autor, isso tudo não importam agora. O que marcou foi esta confusão, parte intencional, parte desavisada, em que eu caía nas minhas tardes de biblioteca. Foi assim que o prédio deixou de ser cinza, que ele foi inventado por mim.

Passado anos, entrei em várias bibliotecas, todas com gostos diversos, de cinzas e coloridos diferentes. Até me tornei bibliotecário. Tantas vezes cinza, outras vezes com cor. Trabalhei em várias delas, cinzentas e com cor.

Vejo a biblioteca ainda hoje dessa maneira. Como algo a desorganizar um mundo paginado, como algo a derrubar uma certeza, limpar a área e construir novos caminhos. A biblioteca é o principio de nossas dúvidas.



Como posso imaginar o passado, como posso ver hoje e construir com o peso da minha vida dentro de bibliotecas, como leitor, como profissional, posso então inventar uma tarde que caberia em qualquer selva de estantes recheadas por livros e meninos perdidos. Posso imaginar que mandava naquela biblioteca, como mandava nas ruas em que jogava o futebol. Posso fazer e falar o que quiser. A fala a seguir cabe em qualquer uma dessas tardes, dessas vidas, desses prédios:

O bibliotecário pede silêncio na biblioteca e o menino rebelde responde:
“Não posso, as palavras fazem barulho na minha cabeça”

Talvez este menino tenha sido eu.

XXX




Ricardo Queiroz Pinheiro, bibliotecário, mestre em Ciência da Informação (USP), atuo em biblioteca pública há 23 anos. Escolhi a mediação de leitura como prática e a política pública como instrumento de trabalho. Estar no front, no atendimento de uma biblioteca pública é um privilégio.


terça-feira, 1 de agosto de 2017

mundão

mundão
kelly guimarães


ele gostava de estudar, não gostava era da escola. o menino. não gostava de calçar sapato e ficar sentado no banco da classe, olhava pela janela. a professora, dona genuína, queria os meninos todos quietos de olhos abertos e boca parada. mas enquanto ela falava, aquele, o menino, pensava em muitas perguntas, o seu problema era um buraco que tinha na cachola e o querer de caber ali o mundo inteiro.

quando aprendeu ajuntar letras foi o mundo que bateu à sua porta, inundou seu travesseiro, os bolsos do calção, seu café com leite e até o balanço atrás no laranjal. as letras lhe contavam o segredo do mundo e o menino mais podia perguntar e ouvir e ler e pensar. e o menino lia tudo quanto era letra, lia embalagem de macarrão, placa de posto de gasolina e até vidro de remédio.

e bem sentia o gostoso que era saber ajuntar as letras e imaginar as coisas dentro do pensamento, como quando leu as aventuras do avião vermelho que a professora o deixou levar durante as férias.

às vezes ele pensava no mundão de palavras que existia e qual era a serventia de tantas “ será que sobra palavra no mundo que fica sem usá e some na desaparecência da cabeça da gente?”

o menino passava as tardes explorando no quintal de casa, guardava insetos num pote de vidro só para vê-los no esforço de fugir, depois soltava os sobreviventes. num outro guardava coisas quebradas e pedaços de coisas velhas, coisas que ninguém queria mais, pensando que um dia iria grudar umas nas outras e montar uma grande e incrível máquina, que ele ainda não sabia qual era.

ele, o menino, era curioso de saber o que era o cinza grosso no céu antes da chuva cair, como era que a luz acendia na lâmpada e se bem-te-vi entendia o pio do pardal e vice-versa. aliás o menino se perguntava quem foi que um dia inventou o vice-versa, que é esse dizer que a gente usa pra um negócio assim-assim e o outro negoçado assim-assado que podem mudar de lugar pra dizer a mesma coisa e vice-versa.

mas nada que o menino pensava, perguntava ou lia, dava jeito no buraco da cachola, era feito uma frieira no pé, coça e dói, era feito o sentir uma aflição e agonia de maior grandeza que dava fogo nas pernas do menino e ele saia correndo, gritando, pulando barrancos e no fim rolava no chão dando risada. o povo todo olhava aquilo assim “menino doido"; porque ninguém não entendia que a doidera do menino era só vontade grande grande de entrar nas coisas para saber como era ser elas mesmas. uma vontade de desatarraxar os parafusos de tudo para ver o que tem lá dentro e quem foi que disse a primeira vez o nome de uma coisa quando ninguém sabia o nome dela, e se um dia a gente decidisse trocar os nomes e chamar cavalo de sapato, sal de mentira, bonito de feio e vice-versa, aí o pai diria: “menino ajeita o sapato na carroça que nois vamu pra cidade compra mentira!”


esse buraco na cachola do menino, era um sem-fim de imaginar. visava quando a mãe, lembrando de uma saudade, dizia que o coração estava apertado. “será que as tripas dão nó no coração? e quando a saudade puxa muita tristeza é o nó na garganta?” o pai ralhava: “menino vai caçar o que fazê.” e ele: "uai, já to fazeno, to curianZo!” é que as perguntas vinham feito pipoca estourando na panela, algumas até encruavam, era quando o pensamento fazia demasia de idéias que dava um silêncio de perguntação.

esse menino queria mesmo era conhecer o avesso do mundo e encher o buraco da cachola para ver se a coceira passava, mas ele sem saber sabia que tudo que ele via e revirava dava nele o abuso de querer ver um pouco mais, um tiquinhozinho mais, igual uma fome que depois do almoço já começa a pensar na janta. era isto: o menino queria comer o mundo.

“mas o mundo é coisa demais!” pensava. então ele inventou uma estratégia, essa coisa de palavra desconhecida, que era “um negócio que a gente pensa pra saber como é que a gente vai fazer a coisa primeira que a gente pensou”, e a do menino, como uma grande e boa idéia, era que ele iria comer o mundo aos poucos, sem pressa, um teco por vez e nisso os dias passando o fariam crescer e junto com ele cresceria o buraco da cachola, até que um dia, de tão crescido que fosse, o menino, o buraco, finalmente coubessem neles o mundo inteiro.

XXX



kelly guimarães, aprendeu a ler aos sete anos de idade em minas gerais, dos contos de fadas às bulas de remédio, cresceu entre palavras guardadas em livros, mais tarde moradora do riacho grande/sbc, matava aula pra ficar na "machado de assis", biblioteca do bairro. coisou teatro datilografia filosofia moda baralho literatura e crochê. paulista de nascimento, mineira de coração, tem o caos na cabeça escorrendo pelas mãos e vários buracos na cachola: uns transbordantes, outros à espera daquela coisinha com capa miolo e vida para além da vida. estantes.encantamentos.




sábado, 15 de julho de 2017

Grito negro


Grito negro

Moisés António

Solto a minha voz num tom alto
recebo
o eco
Palavras minhas
...morrem em orelhas mocas...

Eu sou o negro
Negro
ou preto como o breu?
Ah sou filho
Filho d'Angola
Angola de Ngola Kiluanje
Angola da Mãe África
Da pele negra
Massacrada
Ensanguentada
Confundida com o selvagem!
Afinal quem é o selvagem?
A cor negra, preta
...que não me define?
ou a mente preta que mal me define como selvagem?
Tem
Existem palavras
caracteres que me aleijam o coração
Preconceito
Racismo
Indiferença...
Grito Negro
Em tom da voz
num elo
Que ouço aplausos num eco
do meu eu!
Ah eu sou negro
do solo negro
De mentes puras
Que uniu as nações num Todo!
Sou filho da África
Grito negro em alta voz...
de MARTIN LUTHER KING
" Eu tenho um sonho dum mundo melhor,
onde os meus filhos não serão julgados pelas suas cores,
mas sim pelas suas personalidade".

Grito Negro
como filho da África
Na voz de MADIBA Pai da África
NELSON MANDELA
" A winner is a dreamer who never gives up"
O vencedor é um sonhador que não desiste!
Grito Negro
....Na voz de Moisés António..
Eu sou o Mandela,
Eu sou o ML. King
Eu sou o Negro!



Eu vou

Entre o céu e o inferno
Nuvens pretas e claras
Entre rosas e espinhos
Mesmo passando-me por despercebido entre as multidões
Cambaleando,
Rastejando,
Faltando-me forças
Caminhar eu vou!
Em plena pachorra
Despercebido
Indiferenciado
Julgado na cor entre ela e o intelecto
Entre curvas e linhas tortas feito labirinto
Enigmático
Metafísico
Apocalíptico
Completando a minha inquietude
Onde as oportunidades aparecem,
Vendadas de véus tenebrosos escuros como o breu,
querendo eu,
Me cobram algo em troca
Exatamente aquilo que me falta,
Entre vendaval e o furacão
Maremoto e o terremoto
Na minha pachorra
Mesmo vivendo o incerto
A caminhar eu vou!
Sem teto no relento
Enfrentando o frio do inverno
Um grito eu darei, ainda que rouco
Enfraquecido
Semi -morto
Excluído e indouto
Acalentar-me-ei
Engolindo meu choro
Na vontade de ainda querer viver
Mesmo quando não mais me restar a mera vontade
de querer acordar
Após ter adormecido!
Entre chuva e sol; Trevas e clareza;
Inverno e verão; Céu e o inferno
A Caminhar eu vou!


O Poeta..
O poeta canta
O poeta declama
O poeta reclama
O poeta chora
O poeta é Poeta
Mesmo quando as lágrimas não jorram
Ele as faz cair na tinta da sua caneta!!
Eu sou Poeta
Ainda que mudo em pleno silêncio
A minha caneta fala por mim!
CUIDADO!
Minha Arma - Não é um canhão
Mas quando ela dispara...
Ela aterra até os grandãos!





Essa vida.

Essa vida que vivo
Não é minha
Foi me imposta
Porque não a escolhi é pesada no meu ombro!
Se eu tivesse que escolher
Entre o bom e o melhor
Nem esse seria o meu eleito desejo
do meu querer de bem viver o dia todo!
Sou benfazejo
Querendo ensejo
que complemente meu desejo
de querer viver no mundo do meu sonho!
Tenho carácter
Mas me falta o brio
Porque o meu mundo é sombrio
Vivendo o desamor!
Amor...
Não é isso que os céus nos cobram?
Mas quem o tem o mundo desdenha
E vive o terror?!
De que valem minhas boas intenções
Se não houverem ações
Por falta do que é material e físico
Tornando-me num homem fictício?
Sem dinheiro
Meu amor é nada
Ai de mim se eu for um zero a esquerda!
Este seria o meu enterro!
A vida que eu tenho, Não é minha
Porque não a escolhi
Ela foi-me imposta!


Mesmo no escuro achei a minha paz

Durmo em sono brando
No meio do lago escuro
no meu barco a solo
Embora a sós a beira-mar
Perto do mar
Longe do amor
Querendo amar
Mas sem ninguém para amar
Encontrei a minha paz!
Na solidão
Na incerteza da vida
Ainda que sem luz
No escuro
Em plena inquietude
Descobri a tranquilidade
quando menos me preocupei
Então achei a minha paz!
Jurei comigo mesmo
Ainda sem que
Nem quem
Mesmo no além sem ninguém,
Procurei não me importar mais
Então achei a minha paz!
Na solidão dentro do meu quarto
Mesmo no escuro
No meu mundo vago
Despreocupado
Mesmo sem nada nem ninguém
Eu encontrei a minha paz!

XXX



Moisés António é angolano destacando-se como poeta e narrador de lendas e mitos de sua terra natal.  Traz ao Brasil sua diversidade cultural e linguística, amparadas pela formação em Língua e Literatura em Língua Inglesa, ofertada pela Universidade Pública Agostinho Neto de Luanda, Angola. Compõe a trajetória profissional de Moisés, aulas intensivas de Inglês para membros de grupos corporativos, traduções da Língua Inglesa para a Língua Portuguesa e também da Portuguesa para a Inglesa, além de serviço de interprete. Como Artista e autor, participa de vários eventos poéticos e musicais, denominados Saraus e oficinas da Poesia Permanente Paranaense, Feira do Poeta entre os escritibas na rua em Curitiba, e entre outros eventos ligados à Imigração como o “Planeta é um só”, aonde além de fazer parte das atividades lá realizadas, tem recebido o convite para declamar seus poemas.


        


sexta-feira, 14 de julho de 2017

Baixo os olhos em sinal de respeito

Baixo os olhos em sinal de respeito

Cintia Moscovich

No meu tempo de estudante, e lá se vão anos, a Biblioteca Pública do Estado do Rio Grande do Sul era uma grande sala de estudos e de consulta. Pesquisar no emaranhado de livros, periódicos e fichas era um movimento quase sagrado, que se fazia em silêncio reverente, porque era uma dádiva estar naquilo que a gente imaginava ser a reunião do conhecimento do mundo.

         Tempos ingênuos, reconheço, mas que, a bem do caminhar das coisas, assim deveriam ter-se mantido. À medida em que o acervo da Biblioteca Pública foi-sendo sucateado e se desatualizando, meus pais fizeram com que, apesar dos parcos recursos da casa, nosso acervo de consulta crescesse. O pai fez uma casa em torno da biblioteca, esse era o legado de imigrante que ele nos deixava, e que não esperássemos nada de ninguém, muito menos de um governo que tinha de atender gente faminta, para quem leitura e estudo eram supérfluos — assim ele dizia.

         O sonho de termos nós nossa biblioteca custou muito, é verdade, mas tivemos bem cedo o entendimento que, a depender de políticas educacionais e da boa vontade do Estado, nossa formação, dos meus irmãos e minha, seria um caos. Minha geração, e falo com dor no coração, pouco pode servir-se desse acervo comum. Mas, ainda hoje, ao passar diante da Biblioteca Pública, mesmo que ache um pouco fora de moda a construção de inspiração positivista, baixo os olhos em sinal de respeito.

Xxx




Cintia Moscovich é escritora, jornalista e mestre em Teoria Literária. Autora de 8 livros individuais, mereceu os prêmios Jabuti, da Câmara Brasileira do Livro, o Portugal Telecom, um dos mais respeitados em Língua Portuguesa, e o Clarice Lispector, da Fundação Biblioteca Nacional. É especialsta em oficinas de criação literária.

terça-feira, 4 de julho de 2017

A porta errada

A porta errada
Jéferson Assumção*

Nós tínhamos chegado há pouco de outro bairro no outro lado da cidade e por isso eu não conhecia direito a escola, suas salas e corredores, naquele março de 1979. Então, sem saber, eu entrei em uma porta errada. Quando a abri, vi uma sala de uns três metros por quarto com as paredes repletas de livros de capas coloridas. Uma professora, que estava lá dentro, atrás de um balcão, sorriu e disse: “Pode entrar. Tá querendo alguma coisa?”. Eu entrei. Meus pais tinham estudado bem pouco, não havia livros na nossa casa na época, então se pode supor o impacto que aquela pequena biblioteca teve em mim. Quando eu, enfrentando a paralisia da timidez, decidi passar por aquela porta errada esse passo acabou abrindo também inúmeras outras. E segue abrindo ao longo da minha vida.

Minha relação com as bibliotecas começou quando eu tinha nove anos e morava no bairro Mathias Velho em Canoas, no Rio Grande do Sul. Um bairro de periferia que, no final dos anos 70, não oferecia muito aos seus habitantes. A grande maioria, como meus pais, tinha vindo do interior durante o êxodo rural da virada dos anos 60 para os 70. Mas não eram só as ruas vermelhas de pó e calor no verão e de barro gelado nos invernos infindáveis o que havia na Mathias Velho. Além dos inúmeros e cheios campinhos de futebol, a duas quadras da minha casa estava a Escola Estadual Victor Hugo Ludwig e, dentro dela, um aconchego, um refúgio.

Um ano antes, do outro lado da cidade, eu já havia recebido como prêmio da minha escola por minhas boas notas o livro O Cachorrinho Lau Lau – infelizmente não guardei o nome do autor. E por que eu conto isso? Eu tirava notas boas porque, ansioso, já tinha me alfabetizado antes mesmo de ir para o colégio, em casa, aprendendo o beabá com meus próprios botões e alguma ajuda da minha mãe. Daí que era fácil tirar notas boas e em função delas, no final de 1978, eu desfilava orgulhoso pelas ruas da Rio Branco, um bairro de metalúrgicos, com meu livrinho embaixo do braço. Sem saber, eu começava a dar meus passos narrando-me como leitor. Mostrava para os amigos que eu gostava de ler, e o fazia folheando e relendo inúmeras vezes aquele mesmo livro, para mim, meus irmãos e os vizinhos, até dormindo abraçado à minha biblioteca de um livro apenas.


Bom, na época era costume entre as famílias de periferia, pelo menos algumas das famílias que eu conhecia, esperar para colocar dois ou mais filhos juntos na primeira série. Com isso podia-se economizar um pouco com o material. Comprava-se um só livro didático para os dois, uma só borracha, um apontador, apenas um jogo de lápis de cor, um jogo de canetinhas hidrocor. Não era incomum e aconteceu lá em casa. Como era eu o mais velho, tive que esperar até os sete anos e meio para entrar na escola com meu irmão mais novo, o Jaqueson. Havia certo inconveniente, claro, em se ter apenas um livro didático para os dois, mas ao mesmo tempo era muito melhor começar a vida escolar acompanhado do irmão do que sozinho.


Pois um ano depois, naquele dia em que eu entrei na porta errada da minha escola nova do bairro novo comecei a perceber o que eu sentia por aquele meu livrinho multiplicado centenas de vezes. Impressionou-me profundamente aquela sala. O quanto havia de bonito naquelas cores! Quanta diversidade e variedade de formatos e qualidades de papéis! Mesmo os mais velhos e manuseados! Os gibis! Havia mapas nas paredes e um globo ao alcance da mão, bem à altura dos olhos de uma criança do meu tamanho. E ao me voltar para trás, eu pude ver, num lugar um tanto central numa das estantes, em um silêncio cheio de mistérios, uma enciclopédia. Barsa era o nome dela e estava completa. Como resistir a tanta coisa maravilhosa?

Imagino que aquela biblioteca não tivesse nada demais. Era muito provável que seus livros não fossem novos, como é a realidade da maioria das bibliotecas públicas brasileiras (mesmo as escolares), mas dependendo da sua perspectiva, ou seja, se você vê de baixo para cima ou de cima para baixo, uma sala com livros pode mudar de figura e significar coisas muito, muito diferentes. Foi o que aconteceu comigo, numa escola pública, num bairro periférico de uma cidade periférica na Região Metropolitana de Porto Alegre.

A partir do dia que entrei na porta errada eu, simplesmente, todos os dias passei a ir para a biblioteca nos recreios. Sim, batia a sineta, meus colegas saíam correndo e se acotovelando para suas estripulias no pátio e eu, da mesma forma, pulava a toda velocidade, com meu lanche na mão em direção à porta errada. Precisava chegar à biblioteca, antes que a professora Marina saísse para seu próprio recreio. Por minha insistência tínhamos feito um acordo. Ela deixava-me entrar e chaveava a porta errada comigo lá dentro. Eu ficava lá, com meu lanche, naquele silêncio quente e delicioso, a folhear a Barsa, os enormes Atlas tão perturbadores, ou a passar os olhos pelos diferentes livros, em busca de alguma coisa que até hoje, mesmo depois de um doutorado em Filosofia, não sei o que é nem nunca saberei do que no fundo se trata.

Naquela época, a biblioteca não ficava aberta durante o recreio e me parecia normal que a professora também pudesse ter seu descanso. Aqueles 15 minutos eram pouco mas davam para muito. No final deles, pouco depois que tocava a sineta, ouvia o barulho da chave na porta e era a professora Marina abrindo-a para que eu voltasse ao mundo normal. Passo a passo, mês a mês, fui chegando cada vez mais perto daqueles hipnotizantes livros de aventura, das histórias de Julio Verne e suas Vinte mil léguas submarinas, A Volta ao Mundo em 80 dias, Viagem ao centro da Terra etc. Também, claro, A Ilha do Tesouro, de Stevenson, Moby Dick, do Melville, as inesquecíveis aventuras da Coleção Vagalume... Tanta coisa! Eu sentia como se a biblioteca fosse uma espécie de nave, de bolha na minha realidade, e que eu podia levar para casa desdobrando-a e continuar viajando para bem longe, naquele navio no Pacífico Sul, naquela espaçonave rumo a outro planeta, naqueles trens atravessando as geladas estepes siberianas. Na verdade era apenas uma sala de madeira, mas eu garanto que era suficiente para me transportar para esses e muitos outros lugares.



Naquele mesmo ano, quando chegou o inverno e as tardes eram frias e chuvosas, em vez de ficar em casa eu preferia pegar minhas botas de borracha e o guarda-chuva e caminhar até a porta errada. Ganhei até uma carteirinha de bibliotecário e ajudava os alunos da tarde na escolha dos livros e também nas recomendações sobre como e quando tinham que entregá-los depois de lidos. Eu gostava daquela palavra: bibliotecário, e foi assim que eu fui tratado por uns dois anos seguidos na Victor Hugo Ludwig.

Não por acaso aos 12 anos de idade, eu sabia todas as capitais do mundo. A primeira coisa que um livro e uma biblioteca significavam e significam para mim é uma possibilidade de viagem, não para fugir, mas inclusive para voltar, sempre. Nem de longe eu tive uma infância triste na Mathias Velho, mas à medida que o mundo ia se ampliando à minha volta eu podia sentir que viver era muito, mas muito mais. Acho que inclusive por isso desenvolvi muito cedo um gosto pela literatura menos focada no registro sociológico ou jornalístico. Eu conhecia suficientemente a minha realidade e preferia ir para outros lugares pois já estava constantemente dentro dela. Inclusive, e sobretudo agora que sou um escritor com mais de 20 anos de atividade, vejo o quanto a literatura de imaginação pode fazer por quem vive em determinadas realidades sociais.


Mais tarde, já com 15 anos de idade, meu pai perdeu o emprego em uma demissão em massa de metalúrgicos, no início dos anos 80 e nós, eu e meu irmão, depois toda a família, começamos a trabalhar como camelôs no centro de Canoas. Além da trabalheira, foi muito divertido. E o período em que mais li por prazer em toda minha vida. Achávamos que a coisa ia durar pouco, que em breve passava a crise dos anos 80. Que nada! Foram oito anos e, neles, claro, eu aproveitei o que pude da Biblioteca Pública João Palma da Silva. Ela tinha 40 mil livros e ficava numa espécie de shopping, o Conjunto Comercial Canoas.

Com os livros da João Palma da Silva eu passei para um outro estágio. Havia temporadas em que eu lia um livro de 100 páginas por dia, de 200 páginas em dois dias. Algumas vezes, em função deste meu ritmo de leitura, acontecia uma coisa curiosa. Tinha dias que eu pegava o livro de manhã e no meio da tarde já o tinha lido. Assim, ia à biblioteca para trocá-lo por outro. Desconfiados com aquele moleque que levava livros e os trazia no mesmo dia, eu recebi mais de uma contundente negativa: “Não, não vai levar outro. Tu não está lendo!”. Nessas ocasiões, minha estratégia era contar a história que havia no livro e dizer “olha lá, confere se não é isso mesmo” para que a atendente da biblioteca se convencesse. Uma dessas vezes um dos atendentes, talvez por não conhecer do que se tratava o livro, me fez voltar de mãos vazias. E era um sentimento de vazio, mesmo, ter que ficar sentado na banca sem um livro novo pra ler.

Impossível descrever os dias de prazer e a formação aberta, solta e produtiva que tive naqueles anos de camelô, lendo e aproveitando o máximo que podia de uma das “minhas universidades”, para me referir a um título de Maxim Gorki. Foi uma formação anárquica, vital, prazerosa e livre, a partir do acesso a uma boa e variada quantidade de livros. E tudo com a escola, com aquele livrinho de presente e depois com aquela porta errada. Hoje já se passaram quase 40 anos desde aquela época. Andei por boa parte do mundo sobre o qual eu lia e decorava nos mapas. Aquela porta também se abriu para que eu pudesse chegar a trabalhar por dez anos na política cultural e até mesmo coordenar por um bom tempo a política de livro e leitura do Brasil inteiro. Quando eu fui secretário de Cultura em Canoas colocamos a biblioteca João Palma da Silva ao lado da Prefeitura e da Câmara de Vereadores, no lugar mais central da cidade. Hoje ela está lá num prédio próprio bem mais amplo e arejado, talvez com mais jovens e crianças entrando para o mundo da leitura.



XXX





Jéferson Assumção (Santa Maria-RS, 1970) é autor de mais de 20 livros entre ficção e filosofia. Recentemente publicou "Notas sobre Turibio Núñez, escritor caído" (romance bilingue, português/espanhol, BesouroBox, 2016) e "Cabeça de mulher olhando a neve" (BesouroBox, 2015, Contos), que tiveram lançamentos no Salão do Livro de Paris (França, 2016), na Argentina, Espanha e na Finlândia. É Doutor em Filosofia pela Universidade de León (Espanha), tem pós-doutorado em Teoria Literária na Universidade de Brasília (UnB) e Diploma de Estudos Avançados (DEA) em Filosofia também pela Universidade de León. Atuou por dez anos em diversos cargos na política cultural nacional. Foi  assessor, coordenador-geral e diretor de Livro, Leitura e Literatura no Ministério da Cultura, secretário municipal de Cultura de Canoas-RS e secretário adjunto de Cultura do Rio Grande do Sul. Como repórter especial, gestor cultural e ativista, já atuou em mais de 30 países, como Índia, Quênia, Marrocos, Senegal, Tunísia, diversos países sul-americanos e europeus, Japão, Cuba, República Dominicana e Costa Rica. Coordenou a participação brasileira em feiras do livro internacionais, como as de Frankfurt, Salão do Livro de Paris, Feira do Livro de Santiago do Chile e de Santo Domingo. Mora em Brasília, onde ministra uma Oficina de Escrita Criativa.